Voltar ao Dicionário

Consciência E Inconsciência

Inconsciente

Descartes reconhecia que há pensamentos espontâneos que não deixam recordação, como os que se processam freqüentemente na infância e os que sucedem no decorrer do sonho.

Foi com Leibniz que o infinitamente pequeno penetrou na psicologia, assim como na filosofia e na ciência: “Há mil sinais que fazem julgar que em todo o momento existe em nós uma infinidade de percepções, mas sem apercepção e sem reflexão, quer dizer, mudanças na própria alma, das quais não nos damos conta, porque as impressões, ou são demasiado pequenas e em grande número, ou demasiado unidas. De forma que não têm nada que nos permita distingui-las separadamente; mas juntas a outras não deixam de exercer seu efeito e fazer-se sentir, pelo menos confusamente, no conjunto”. E dava, como exemplo, uma floresta à distância, em que não vemos as folhas de cada árvore, nem os galhos de cada árvore, mas temos um visão de conjunto. Dessa forma, a visão seria formada de pequenas impressões não apercebidas, ou seja, cuja percepção não era isoladamente consciente, mas que, no todo, davam uma apercepção de conjunto.

Muitos psicólogos negam a existência de fenômenos psicológicos inconscientes, pois alegam que, sendo a consciência própria do pensamento, o que não é consciência deixa de ser psicológico. Admitem fenômenos fisiológicos inconscientes, mas consideram absurda a aceitação de fenômenos psicológicos inconscientes, pois seria uma contradição em termos. Este argumento decorre das seguintes razões: um fenômeno psicológico torna-se conhecido de nós através da consciência, pois não há um conhecimento sem consciência. Esta a razão que nos leva a crer que a consciência é da essência do psicológico. Consequentemente aceita-se que o consciente é da essência do pensamento. Mas se admitirmos que a consciência não é a essência do pensamento, mas da sua apreensão, os fenômenos psicológicos inconscientes são compreensíveis.

Outra objeção proposta é a de que não podemos examinar esses fenômenos psicológicos inconscientes, por serem incognoscíveis, visto serem inconsistentes. A consciência não pode apreender o que lhe escapa, portanto o conhecimento se torna impossível, visto o conhecimento implicar a consciência.

Para a patologia em certos neuróticos e psicóticos há estreitamento do campo visual e da consciência, o que não lhes permite um conhecimento muito dilatado, sendo, em regra, restringidos na sua ação e visualizam apenas aspectos, enquanto outros, perceptíveis a um homem normal escapam-lhe totalmente.

Na atenção há desatenção ao que não nos interessa, o que nos mostra que a consciência não é intensivamente igual, apresentando gradação. Entretanto, o que desatendemos exerce também sua influência na consciência, embora nos pareça pequena, sobretudo nas vivências de antipatia e simpatia, nas vivências afetivas.

A psicologia patológica oferece exemplos em favor da teoria do inconsciente, com os trabalhos de Freud, Jung, Adler, Richet, Janet e outros.

Retornando aos argumentos de Leibniz, que dá como exemplo o ruído do mar, composto de milhares de ruídos infinitamente pequenos, isoladamente imperceptíveis, dizem os críticos da teoria do inconsciente que, se assim fosse, não se poderia conhecer o todo. Ora, não é possível que não sendo conhecida a parte se possa conhecer o todo; pois dado um número infinitamente grande de zeros de consciência estes nunca podem formar uma consciência. Este argumento não procede, porque na realidade o nosso conhecimento do todo não é formado pelo conhecimento das partes. E não procede porque o infinitamente pequeno é ontologicamente falso, por impossível.

Em todo conhecimento há uma seleção; fixamos nossa atenção, por exemplo, visualmente em algo, mas desprezados por isso mesmo o que o contorna. Se queremos observar bem o livro que temos à nossa frente, concentramos o olhar, damos certa tensão ao mesmo, observamos-lhe os contornos e, em cada uma dessas operações de exploração pelo livro, observamos que, ao fixarmos um dos seus aspectos, os outros estão como esfumados, obscuros. As vibrações luminosas não são visualizadas como partes, mas como um todo, pois há as que nos escapam à visão, enquanto outras, desde que atinjam uma determinada intensidade, passam a ser percebidas.

Sucedeu com Leibniz o que parecia mais racional em face do infinitamente pequeno. Há duas tendências marcantes: uma, a mais numerosa, que procura explicar tudo reduzindo a algo homogêneo, único, simples; outra, a menos numerosa, no Ocidente sobretudo, que procura explicar tudo heterogeneamente, aceitando uma espécie de pluralismo, isto é, admitindo múltiplos elementos qualitativos, formadores das coisas. Leibniz procura explicar o todo pela parte, considerando este como uma espécie de soma das partes componentes, como o apresenta a matemática, mas que a vida teima em não aceitar, pois um corpo humano não é apenas a soma de suas partes, um conjunto de braços, pernas, órgãos, mas forma, na sua totalidade, um quê de diferente, de novo. Além disso, os fatos nos comprovam, por exemplo, se um peso de 100 gr. é capaz de romper certo fio, não vamos julgar que 10 gr. sejam capazes de romper apenas um décimo do fio. Há, realmente, uma tensão maior do fio, com esse peso, tensão que cresce à proporção que aumenta o peso, só se verificando a ruptura quando do acrescentamento das 100 gr.

Uma análise dos fatos da vida nos mostra, patentemente, quando penetra e intervém o inconsciente no que fazemos. Um pianista, por exemplo, ao executar um trecho de música, não é consciente de cada um dos seus movimentos. Um operário, no seu mister, realiza atos dos quais não tem consciência, mas que formam o contexto de suas operações. O artista, ao realizar uma obra de arte, nem sempre pensa em cada um dos seus atos, nem deles tem consciência, pois muitas vezes, na obra criadora, não penetra nenhum traço de consciência. Muitas das nossas associações de idéias se processam sem que se perceba nenhum traço de consciência. Praticamos muitos atos inconscientemente sem que deles guardemos qualquer recordação e muitas vezes estranhamos que nos assinalem um gesto ou um mover de nosso rosto, dos quais não tínhamos a menor consciência. Nas afeições, sobretudo na simpatia e na antipatia, há muito de inconsciente, como também nos nossos hábitos, nos sonhos, nos desvarios, além das inúmeras distrações que conhecemos sem a participação de qualquer ação da consciência, sem que saibamos o que fazemos.

A psicologia patológica veio acrescentar inúmeras provas em prol da teoria do inconsciente, tais como as anestesias nos casos de histeria, que não têm qualquer fundamento constitucional, e são apenas de caráter psíquico. Outro fato já citado é o que se refere às diversas personalidades que evidenciam certos doentes mentais, não guardando a menor consciência do que praticam nesses estados diversos. A atividade do inconsciente é imensa.

Pierre Janet, o espiritista Myers e muitos outros estudaram inúmeros casos de fenômenos inconscientes que mostram uma grande riqueza de execução. Esta a razão porque a psicologia em profundidade procura estudar este campo imensamente grande. Alguns psicólogos negam-na totalmente.

Entre os filósofos, Sartre afirma “que a única maneira de existir para a consciência é de ter consciência que existe”… “a consciência é o ser da consciência”. Aceita Sartre, porém, um desconhecimento. “Toda consciência não é conhecimento. Há consciências afetivas, por exemplo… esse ciúme, eu o sou, e não o conheço”.

O argumento fundamental de todos os que se colocam numa posição negativa é o seguinte: ser inconsciente, o não ter consciência, é privação total de consciência. Neste caso nunca poderia tornar-se consciente. A outra posição, a afirmativa, funda-se na experiência. São fatos que levam os psicólogos a construírem e a aceitarem a existência de um psiquismo inconsciente. No entanto, se nos colocarmos dentro de um falso formalismo lógico teríamos de negar toda e qualquer passagem do inconsciente para o consciente. Mas nossos atos nos revelam muitos motivos inconscientes, e a psicologia em profundidade já reuniu número suficiente de fatos para comprová-los.

Há também nos fatos de associações de idéias exemplos como associações complexas, puramente inconscientes, como também os da atividade criadora do espírito. Quantos problemas são resolúveis subitamente e neles se vê uma longa cadeia de fatos e de idéias. Músicos como Mozart relatam ter ouvido toda uma composição num segundo de inspiração, em que a obra surge sem que houvesse um trabalho prévio (consciente, certamente) de coordenação. Há fatos afetivos, antipatias ou simpatias, que são considerados inconscientes. E a caracterologia nos mostra que são quase sempre bem fundados.

Voltar ao Dicionário