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Causa

Causa

Termo cujo correlativo é sempre o efeito. A razão primitiva dos conceitos de causa e efeito parece ser a experiência de que atos voluntários de um sujeito produzem coisas novas. A correlação existente entre o ato e o seu produto foi concebida como necessária, e assim cada fenômeno que, para o pensamento ingênuo, tomou o aspecto de uma "coisa", como que independente e delimitada do resto da realidade, parecia forçosamente fazer surgir a questão acerca da causa desse fenômeno, concebida de maneira antropomorfa como um ato de um ser inteligente, ou aliás, de qualquer maneira, como um elemento ativo.

Aristóteles parte da totalidade do mundo na ordem como ela se apresenta e procura os elementos que condicionem a sua existência. Como Platão já tinha distinguido entre uma causa (aitia), que determina o caráter qüididativo de um ser e a causa que faz com que alguma coisa exista, não é de admirar que Aristóteles também chegasse a estabelecer uma pluralidade de causas, que combinam a sua doutrina sobre os problemas de matéria e forma, e de potência e ato. As quatro causas que Aristóteles enumera como razões constitutivas de cada ser são: 1) a causa formal (ê ousia, to ti einai, eidos, logos, paradeigma); 2) a causa material (ê hylê, to hipokeimenon, oû gignestai); 3) a causa eficiente (ê arkhê tes kineseôs); 4) a causa final (to ou eneka, t'agathon, to telos). A tradução das quatro causas aristotélicas se baseia nos respectivos termos latinos da escolástica (causa formalis, materialis, efficiens, finalis), que interpretam perfeitamente o sentido das respectivas expressões gregas.

A causa formal que se identifica com o eidos (forma) visava, originariamente, as qualidades sensíveis, especialmente a forma corpórea, e posteriormente também as outras qualidades. Como Platão atribuiu ao eidos uma existência eterna, ele considerou-o caracterizado, também, pela prioridade no tempo referente àquele ser que acaba de "informar". Em Aristóteles, que reduz o eidos a um correlativo da hylê (matéria), cai também na prioridade temporal da causa formal. No mesmo sentido platônico deve-se atribuir uma prioridade temporal à causa material, porque também a hylê devia existir antes da sua cópula com a forma. Em Aristóteles, porém, a hylê significa antes um dos elementos constituintes de uma coisa atualmente existente, sem implicar, necessariamente, uma existência anterior.

A causa eficiente é algo atualmente existente e sempre anteriormente àquele cuja causa é. É o que mais se aproxima do conceito moderno de causa. A causa final (causa finalis), de certo modo, reúne as outras três causas, mas acrescenta novos pontos de vista: 1) o por cuja razão algo deve existir, isto é: ou as boas qualidades que uma coisa possui em si ou um outro bem do qual figura como causa eficiente; 2) causa final é o por cuja razão uma coisa existente foi produzida por um ser inteligente; e 3) é a finalidade, o desígnio, considerado como um fato mental, que produziu alguma coisa. Essas três acepções se confundem tanto entre si como com as outras causas.

As escolas de Platão e de Aristóteles, e também os estóicos, consideraram a causa final a mais importante de todas as causas e a que mais merece este nome. Os epicuristas, porém, tencionavam limitar o conceito de causa àqueles fenômenos que pudessem ser observados como regularmente precedentes no tempo. Entre os cépticos surgiu a teoria de que causa e efeito dependem de si mutuamente, ficando assim desaprovada a prioridade lógica que geralmente adere ao conceito aristotélico de causa.

A escolástica mantinha, geralmente, os pontos de vista aristotélicos. Mas a aplicação dos mesmos ao mundo real tornou óbvio que a causa eficiente de uma coisa ou de um acontecimento concreto não é uma só, mas uma pluralidade dos mais complexos elementos, o que levou a distinguir entre as causas eficientes uma como a principalis. Também se contrapõe a causa principalis à causa instrumentalis que, então, se exemplifica pelo obreiro e pelo instrumento usado. A causa direta e a causa indireta significam o que produz e o que permite realizar. A causa unívoca é a que esgota em um efeito determinado, e a causa equívoca, a que contém mais do que este efeito. A causa adutiva é aquela que conduz a causa principal ao ato. Seguindo Aristóteles, a escolástica conhece também uma prima causa cuja característica é que ela mesma não possui causa alguma.

Descartes conferiu ao termo causa um sentido lógico que inclui as acepções tradicionais, mas sobrepassa-as ao mesmo tempo. Como, segundo ele, as relações lógicas entre as coisas aderem à própria realidade dos fenômenos percebidos, o conceito de causa se identifica com o de razão (causa seu ratio) e forma, assim, o fundamento lógico de uma proposição, a verdade que a justifica e que tem por correlativo o termo conseqüência.

Leibniz tenta conceber todas as causas eficientes como causas finais, salientando que cada efeito é produzido por um desejo, a ponto de converter sem restrição os termos desejo e causa. Ele, porém, não esclarece a dúvida que já tornou impossível uma interpretação clara de Aristóteles, a dúvida se é o próprio desejo como fato mental ou o objeto desejado o que cumpre a função de causa final. Iguais desejos, segundo ele, sempre produzem iguais efeitos, porém, não há necessidade quanto ao seguimento do efeito à causa, quer dizer ao desejo.

Hume procurou destruir o nexo de necessidade geralmente suposto entre causa e efeito. Apesar dos exemplos que demonstram que um certo efeito segue-se a uma certa causa, não nos autorizam eles estabelecer uma necessidade intrínseca, que condicione um desses dois termos pelo outro. É somente o hábito de ver dois fenômenos sempre juntos, que leva a presumir um laço necessário, argumenta Hume. A palavra efeito só pode significar o que por força de hábito esperamos no futuro. Hume dá, com isso, uma análise psicológica referente à origem da consciência de causalidade, mas nega a sua validez de aplicação ao mundo da realidade.

A crítica de Hume levou Kant a investigar pormenorizadamente o conceito de causalidade. Como resultado dessa investigação concluiu que a relação entre causa e efeito constitui uma síntese de índole muito particular, que se caracteriza pelo fato de que a um termo A, é posto um termo B, completamente diferente, e obediente a uma regra. O nexo existente entre causa e efeito é, segundo Kant, mais que uma simples sucessão invariável, é antes uma dependência absolutamente geral e até necessária. Essa síntese de causa e efeito tem uma dignidade toda especial, que não se pode expressar empiricamente, e que consiste no fato de que o efeito simplesmente não sucede à causa, mas é posto em virtude dela, e como que procede dela. A concepção kantiana de causalidade parece equilibrada, visto ser ela capaz de abrigar os dois termos extremos do conceito de causalidade, que se manifestam em toda a problemática desse assunto: o conceito antropomorfista, como dando origem à representação de causalidade, e o conceito mecanicista, que se desenvolveu pela aplicação do primeiro ao mundo material.

Uma definição clara do primeiro, já dada por Malebranche, e designada como causa eficaz, que é a de um ser que exerce uma ação, que modifica um outro ser no sentido da modificação extrema de criação ou aniquilamento, sem perder ou ceder nada da sua própria natureza ou da sua potência de agir ulteriormente. Stuart Mill define o sentido mecanicista de causa como: o antecedente ou o conjunto de antecedentes, do qual o fenômeno chamado efeito é invariavelmente e incondicionalmente o conseqüente. Essa definição se opõe à de Malebranche, pela abstração completa do elemento voluntário ou ativo, mas também desmente a acepção kantiana de um laço real, lógico ou necessário.

Há outros, porém, que opinam que a causalidade mecânica não significa ainda uma redução à mera sucessão ou simultaneidade dos fenômenos, mas que, também, na causalidade mecânica, pode haver uma causalidade verdadeira com entrelaçamento real dos fatos, aliás reservado à causalidade ativa. Foi proposto denominar esses dois conceitos limites de causa, como causa eficaz e causa eficiente. Outros preferem os termos causa ativa e causa legal (no sentido da palavra alemã gesetzmässig).

Todo o interesse consiste agora em saber qual é essa lei que constitui o caráter legal da causalidade mecânica, e que nos autoriza a denominar alguns fatos como causas e outros como efeitos daqueles. Essa lei foi considerada pelos cientistas naturais da era materialista como a lei física exemplar, em virtude da sua validez universal, e a crítica de Hume não a derribou da sua posição-chave no pensamento científico. Mas, sob a luz da teoria matemática da relatividade, os fatos se apresentam de maneira diferente. É óbvio que os acontecimentos reais chegam à nossa consciência por intermédio de certos elementos, nos quais se prende universalmente a nossa percepção, como a nossa percepção visual depende dos raios de luz que partem da matéria e chegam à nossa vista.

Suponhamos que um observador esteja situado em um corpo celeste que se afasta da nossa Terra. Por um telescópio ele observa os acontecimentos que têm lugar aqui. Quanto mais rápido esse astro se afasta da Terra, tanto mais tardarão os raios luminosos que partem até chegarem ao observador. Se o astro alcançar uma velocidade igual à da luz, o observador está impossibilitado de contemplar os acontecimentos terrestres, visto que nenhum raio luminoso alcança mais o seu ponto de observação.

Suponhamos que o astro chegue a ultrapassar a velocidade da luz. Isto significaria que o observador podia recolher os raios de luz que partiram da Terra antes mesmo dele começar a sua observação, e isto, progressivamente, começando com os mais recentes e ajuntando, depois, os mais antigos, em ordem inversa àquela que teve lugar nos respectivos acontecimentos terrestres. Se este observador nascesse e morresse sob essas condições, ele, em toda a sua vida, não faria outras experiências do que aquela que vidraças arrebentadas costumem reintegrar-se quando uma pedra penetra nelas. Nessa ordem inversa, qual seria então a causa e qual o efeito? Este exemplo é hipotético, porque conforme a teoria da relatividade nenhum corpo pode ter uma velocidade maior do que a luz. Mas evidencia-se que a causalidade tem uma direção que se relaciona com as condições subjetivas do observador, alega-se.

Mais forte ainda é a crítica que desaprova o modo de chamar um fato isolado a causa de um outro fato. Um olhar mais atento no mundo da realidade deve convencer-nos do concatenamento universal de todos os fatores reais, de maneira que só se pode chamar a totalidade de todas as condições vigorantes no universo a um dado momento, como causa da totalidade das condições no momento subsequente. Contudo, também essa acepção parece só uma parada a meio caminho. Sem dúvida a consideração da totalidade dos acontecimentos representa já um certo progresso, mas na acepção do pensamento moderno ainda é cheia de ingenuidade, porque pressupõe a existência de "acontecimentos", de "fatos", como elementos separados, que só secundariamente são juntados por adição, ao qual se opõe a concepção moderna do mundo como um processo único e não uma coleção de acontecimentos. Este é o novo panorama do mundo, dado por Bergson, William James, Whitehead e outros, que responsabilizam o intelecto pela dissensão arbitrária do mundo em objetos e acontecimentos isolados, de maior ou menor extensão e duração. É óbvio que um mundo de coisas isoladas precisa de algo como uma causalidade, que sirva de ponte sobre os abismos, sem jamais cair na suspeita de uma ação à distância. Mas onde cada parte do mundo é presente em cada outra parte, de maneira a constituir um fluxo contínuo e homogêneo da realidade, não há lugar para um conceito de causalidade. Que quer dizer isto, senão que o mundo de isolamento é o mundo da nossa consciência, e o mundo da continuidade é o mundo real, e se a causalidade só tem lugar no primeiro, que o conceito de causalidade é puramente subjetivo, ou que o mundo real e total é sem fisionomia, e que nós lhe gravamos certos contornos? "Os vestígios que descobrimos na areia do tempo são nossos" (Eddington). Também Kant tomou a causalidade como uma categoria subjetiva. Ele, contudo, chama a relação entre causa e efeito "uma síntese toda especial". É a síntese tentada pelo homem, que quer reunir as partes do mundo, separadas pelo nosso intelecto, sem conhecer a forma final que terá. Só esporadicamente ele reconhece, pela correspondência das quebraduras de dois pedaços que eles pertencem um ao outro.

Crítica

Considera-se condição (de conditio, ditio cum, dito, ordem) toda e qualquer circunstância, cuja ausência não permitiria que uma coisa fosse o que ela é. É condição, para que alguém escreva agora, haver luz. Mas vê-se, desde logo, que se pode distinguir a ideia de condição da de causa. A causa é uma condição, mas uma condição com um diferente específico: a de ser sine qua non, isto é, sem a qual (sine qua) a coisa não (non) se produziria, pois é conexionada com aquela, ou seja, dela depende real e essencialmente.

Conclusão: A causa é o que determina necessariamente a produção de uma coisa, a qual dela depende real e essencialmente; é o que infunde ser à coisa, é o ser que flui na própria coisa; enquanto a condição é o que é necessário apenas à ação da causa. A causa exige condições, sem as quais não atua. Mas o efeito implica a necessidade da causa. As condições são fatores, em suma, necessários neste ou naquele fato, não necessários sempre como causa, pois os fatores podem ser diversos, enquanto a causa é sempre única.

Antecedente é o que precede a uma coisa; causa, o que a produz. Os positivistas vão considerar como causa o antecedente de um fenômeno, que faz que a coisa seja o que ela é (metafisicamente); ou melhor, o simples antecedente do efeito. A identificação entre causa e antecedente não resolve o problema, apenas renuncia resolvê-lo. Lei e causa são também identificados. Mas lei tem um sentido geral, enquanto a causa é concreta e individual. A lei afirma uma relação de causalidade. O exemplo do martelo, que ao bater na pedra a esquenta, mostra-nos bem claramente a diferença. O martelo é a causa do aquecimento da pedra, mas a lei é a lei do choque, e este se transforma em calor. A causa implica a lei, dá-se no campo desta. A causa é individual, a lei é universal e ela nos explica a causa. É uma constante genérica, invariante, enquanto a causa toma seus aspectos singulares segundo as diferenças das condições (fatores, etc.). A ciência procura explicar as causas e delas alcançar as leis. A lei é, assim, um esquema generalizado das causas e expressa o nexo invariante dos variantes causais e dos fatores.

A origem próxima da ideia de causa leva-nos à construção de um esquema abstrato. As causas, as condições e os fatores, distinguidos pela variabilidade dos fatos, que são históricos e, portanto, singulares, mas que nos revelam a variância do seu acontecer, levam-nos à construção do esquema de lei que universaliza os fatos, que os inclui em seu âmbito globalizante.

As causas eficientes, que são as que produzem a coisa (ex-facere), se nos apresentam nas formas mais diversas. Temos a causalidade mecânica que consiste no movimento e no deslocamento locais, por muitos aceita como a única (Demócrito e os materialistas). A geração biológica é uma causa eficiente em que um ser transmite suas propriedades específicas, que era por Aristóteles considerada como a mais alta espécie de causa.

A ideia de causa implica a de efeito. Mas este já está contido em potência na causa. Está virtualmente nela. Argumentam os escolásticos que o ser, por ser ato, é ativo. Se não houvesse causas eficientes não haveria nada. O agir segue-se ao ser (agere sequitur esse). O agir é uma propriedade essencial do ser, que é eficacidade, e cada ser age segundo seu modo de ser. Ele é, por si mesmo, ativo, pois um ser que fosse inativo, não teria eficacidade e seria nada. É tensão (ens est diffusivum sui). A causa é um constitutivo essencial do ser. Desta forma a ideia de causa toma uma justificação ontológica. A causa de tudo é o Ser que, por ser ativo, realiza-se em sua própria atividade, portanto atualiza tudo quanto pode ser, pois é tudo quanto pode ser, pois só ele tem a eficacidade primordial.

Comentários sobre o tema da causa e do efeito

Sem dúvida em torno do tema da causa têm surgido uma sequência de erros funestos para a filosofia. É a etiologia a disciplina ontológica que se dedica ao estudo das causas, e cabe a ela examinar a problemática que surge aqui e dar as soluções que se impõem.

Na explanação sintética desta matéria, o que nos interessa é apontar os erros famosos, que tanto perturbam o processo filosófico. Diz-se que é princípio o de onde alguma coisa se origina, de onde ela surge. O princípio pode ser de dois modos: um que realiza um influxo positivo e comunica seu próprio ser; outro, o do qual surge outra coisa, que não é o positivo influxo e comunicação do ser do primeiro, mas outro ser, privado do ser do primeiro. Em suma: o primeiro princípio é o que, no catolicismo, se empresta a Deus, como princípio do Filho, cujo ser é o mesmo embora com papéis diferentes, pois o Pai é onipotência, a Vontade, e o Filho, a intelectualidade, a onipotência ao criar isto e não aquilo.

Quanto ao segundo princípio apresenta uma série de características: 1) é comum a todo princípio a prioridade sobre o principiado, prioridade pelo menos ontológica; 2) certa conexão do principiado ao princípio, já que este é princípio daquele; 3) nem há razão de equivocidade (do contrário não haveria nenhum nexo), nem de univocidade (do contrário seriam o mesmo princípio e principiado), mas de analogia entre ambos. Princípio é o que pelo qual algo é procedente de certo modo (Principium est id a quo aliquid procedit quocumque modo). No conceito de procedere há a implicância da consecução e da conexão. Essa definição é de Tomás de Aquino, que é mais ampla que a de Aristóteles: id unde áliquid est (o de onde alguma coisa é), aut fit, aut cognoscitur (de onde é feita ou é conhecida). Nessa definição incluem-se o princípio da coisa, da cognição e do devir (fieri).

A causa é de certo modo um princípio, porque é o de que (ou pelo qual) alguma coisa procede, é dela procedente. Causa é um princípio que influi por si ser em outro. Como princípio é razão de ser do outro. Mas eis aqui o que distingue causa de condição: a chamada causa permissiva, que permite que outro princípio infunda o ser em outro, é propriamente a condição, que não obstaculiza a ação da causa, não infundindo, porém, ser ao que daquela resulta. Se se deixasse, como se deve deixar, para o conceito de causa, o que acima dissemos, não confundindo a condição com ela, evitar-se-iam muitos erros graves na filosofia.

O causado depende necessariamente da causa. Se há um ser que, para ser, é mister que outro lhe infunda o ser, necessariamente tal ser implica outro, como analiticamente decorre de sua própria conceituação. Há uma série de distinções entre causa e princípio: 1) O princípio é um conceito mais genérico que causa e oferece uma razão genérica; 2) O causado depende necessariamente da causa, enquanto o principiado não depende, como é o caso do princípio, que comunique positivamente o seu próprio ser ao principiado. 3) O causado é contingente e finito, enquanto o principiado não o é necessariamente.

O outro, no qual a causa influi por si ser, é o que se chama efeito. Consequentemente, na relação causa e efeito há uma distinção real, porque a natureza do efeito é outra que a da causa, e há prioridade desta sobre aquela, prioridade de natureza e o nexo de dependência real, que é a causalidade. Pois um ente é causa, quando influi ser em outro; ou seja, enquanto é causante, e o pelo qual a causa formal e imediatamente se constitui em causante é o que se chama causalidade.

Outro conceito que merece precisão é o de ocasião. Consiste esta em ser o que, por cuja presença, a causa é induzida a agir. Ela não influi ser ao efeito, não exerce nenhum influxo causal, por isso não é uma causa suficiente, mas insuficiente, inadequada. Quando se diz que a ocasião faz alguma coisa e se dá como causa de tal coisa, está-se dando uma razão insuficiente do efeito, está-se apresentando uma causa inadequada do efeito. Distinguidos causa e efeito, ocasião e condição, muitos erros na filosofia poderiam ter sido evitados, e não o foram porque as confusões dominaram a mente de filósofos não devidamente advertidos de tais conceitos.

Podem as causas serem intrínsecas ou extrínsecas. As primeiras são as emergentes, pois emergem na natureza da coisa causada; as segundas, as predisponentes, distinguem-se do causado, influindo no modo de ser deste, marcando-lhe uma direção, não constituindo a sua natureza. Diz-se que uma causa é adequada quando ela influi totalmente o ser no causado; inadequada, a parcial, que atua com outras causas para que o efeito se dê. Uma causa é per se quando pela própria entidade, enquanto tal, influi verdadeiramente ser, e per accidens (por acidente), a que influi somente em conjunção com outras, que por si influem o ser. Assim o vaso solto no ar cai por uma causa per se, mas o ferimento que provoca em quem passa realiza-o per accidens; o agricultor que lavra é causa per se de sua ação, mas do diamante que descobre é causa per accidens. Consequentemente chama-se efeito per se o correspondente à primeira causa, e per accidens à segunda. O trágico está nos efeitos per accidens, e não nos per se. O herói trágico é aquele que está sujeito às causas per accidens, que realizam nele efeitos per accidens.

Diz-se que uma causa é imediata quando ela realiza o efeito sem qualquer outra intermediária; e mediata quando não realiza imediatamente o efeito, mas emprega intermediários.

É conhecida universalmente a divisão aristotélica das quatro causas: a eficiente (a que faz), a formal (a que constitui a forma da coisa), a material (a matéria de que é constituída a coisa) e a final (ao para que tende a coisa feita). A formal e material são causas intrínsecas (emergentes) do efeito; a eficiente e a final são causas extrínsecas (predisponentes) do efeito. São essas causas, segundo a linguagem escolástica, a quo, ex quo, per quid et propter quid.

O que está no efeito tem de estar contido de certo modo na causa. Esta tem de conter o efeito: virtualmente, ou seja, a causa tem de poder realizar o efeito; formalmente, a perfeição do efeito tem de estar contida na causa eminentemente, não estar contida na mesma razão, porque então o efeito seria idêntico à causa, mas sua razão (seu logos) tem de estar contido no logos da causa. Consequentemente: o efeito não pode conter perfeições de ser que não estejam de certo modo (virtual, formal, eminentemente) contidas na causa; portanto, jamais o efeito pode ser maior que suas causas, pois o excesso de ser viria do nada, o que é absurdo. O mais deve preceder ao menos, portanto uma concepção evolucionista, que afirme que o mais viria depois do menos (salvo em sentido quantitativo), é absurda e falsa.

A causa tem de ter prioridade ao efeito (prioridade lógica, ontológica, ôntica). O efeito dependerá da causa (penderá dela), mas essa dependência será real e não apenas lógica (será também ontológica e ôntica). Consequentemente, causa não é apenas o ser antecedente ao efeito, e este o ser consequente. É mister o nexo-real de dependência, que se chama causalidade.

A causa eficiente, enquanto tal, é em ato, e realiza uma ação, a de infundir ser em alguma coisa. É universal quando infunde ser a todos os seres, é particular quando apenas a uma região de seres ou a um ser. Poderá ser adequada ou inadequada, mediata ou imediata, necessária ou livre, etc., segundo as mesmas razões acima já expostas. A causa eficiente, porque faz, atua uma ação no que é feito, efeito. Pode ela ser principal e instrumental. A principal é aquela que faz sem necessidade de meios, enquanto a instrumental usa instrumentos (meios úteis) para obter o efeito. A causa eficiente principal implica as secundárias, pois como causa eficiente principal absolutamente considerada só o Ser Supremo Primeiro, Ser absoluto (Deus), pode ser considerado tal.

Uma causa eficiente implica os seguintes adágios: a) só atua enquanto em ato, porque não pode operar o que não é princípio de operação; b) ao modo de operar segue-se o modo de ser, porque o efeito não pode superar a causa; c) não atua de modo superior à sua espécie (também pelas mesmas razões); d) realiza no efeito algo semelhante a si; ou seja, o efeito de certo modo tem de estar contido na causa; e) quanto mais poderosa a causa, superior será o efeito (é uma consequência do que já se examinou). Estes cinco postulados são axiomáticos para todos os que seguem a filosofia positiva e a concreta.

Atingimos o princípio de causalidade. A exigência de uma causa para ser o ente o que é, foi expressada pelos filósofos positivos de várias maneiras: 1) o que é feito tem causa; 2) nada é feito sem causa; 3) nada transita do não-ser para o ser, sem causa; 4) não há efeito sem causa, todo efeito tem causa; 5) o que principia a ser tem uma causa eficiente para ser, pois o que começa a ser, antes não foi como é, e tem uma causa eficiente realmente distinta de si, que o faz ser; 6) todo ser contingente (que é aquele que para ser precisa de outro) tem uma causa eficiente de si, realmente distinta de si mesmo.

Um dos conceitos mais usados por alguns filósofos é o de devir, do vir-a-ser, do fieri, como se este fosse outro que o ser. Julgam que afirmando o devir, negam o ser, enquanto outros pensam que o devir é outro que o ser, e seria portanto não-ser, como o ser seria um não-devir. Mas que devir conhece o homem se não a passagem do que é potencial para o atual? Ademais, o que pode haver entre ser e nada? O devir não é um meio-termo entre ser e nada, mas o ser em sua dinamicidade, e nada mais. Contudo, esse conceito foi usado, e ainda o é por muitos como uma refutação do ser, como se o que devém fosse nada, e se o devir pudesse sustentar-se sem o ser. O que devém é ser para que haja o devir. E de onde provém esse erro? Vem de julgarem que ser é imobilidade, imutabilidade total e absoluta, por não haverem compreendido nitidamente a doutrina da enérgeia e da dynamis de Aristóteles. Ao examinarmos a razão suficiente do devir, verificamos que tudo quanto há tem uma razão suficiente intrínseca ou extrínseca para vir-a-ser. O que começa a ser não pode começar a ser por si mesmo, porque então já existiria antes de existir o que é absurdo. Nem pode surgir do nada, porque este não pode influir ser em alguma coisa, já que não tem, e não pode dar o que não tem para dar, nem ser o que não é coisa alguma, nada. O que começa a ser exige algo que infunda o ser.

Entre os gregos, Enesidemo, Sextus Empiricus e os cépticos em geral negaram valor ao princípio de causalidade e declaravam nada saber sobre a causa; ou melhor, que causa não pode existir nem antes, nem durante, nem depois do efeito. Na Idade Média, fundando-se em Aristóteles, sobretudo em seu adágio: "o que é movido é por outro movido", afirmava-se a causalidade, posta em dúvida por filósofos modernos, entre eles Nicolau de Beguelin, porque o adágio de Aristóteles não é um juízo analítico, pois o que se move, sendo movido por si mesmo, não implica contradição com o primeiro juízo. A maioria dos escolásticos maiores reconhecem que tal juízo não é analítico, e não é sobre ele que fundam a causalidade.

Dentre os principais adversários da ideia de causa está: Locke, que afirmava que chamamos causa ao que precede a um fenômeno e, sobretudo, Hume. Para ele o princípio "o que começa a existir deve ter uma causa de sua existência" era destituído de fundamento. Não temos certeza intuitiva dessa proposição, que só seria verdadeira se provássemos ser impossível que alguma coisa começasse a ser sem um princípio produtivo. E tal, afirma Hume, é impossível fazer, porque a ideia de causa é separada da ideia de efeito. Só alcançamos a estes conceitos pela observação da sucessão, pois a experiência não nos dá o nexo interno. Como surge para ele a ideia de causa? Causa e efeito não são inerentes à qualidade de qualquer objeto. A ideia de causalidade deriva de alguma relação. Qual é ela? O que chamamos causa e efeito são algo contíguos num objeto. Essa contiguidade é percebida como essencial à noção de causa. Observa-se alguma prioridade no tempo da causa sobre o efeito. O que apenas captamos na nossa experiência é contiguidade e sucessão, duas relações que não são por si sós suficientes para explicar a ideia de causa, na qual se inclui uma connexio entre ela e o efeito. Nada mais nos dá a experiência, e nada mais construímos senão o que cabe aos três modos de associação: semelhança, contiguidade, sucessão. É impossível penetrar na conexão íntima entre causa e efeito. Stuart Mill acompanhou Hume em suas críticas. O fundamento que se oferece para a causalidade é apenas a ordem de antecedência e consequência, o que não implica que seja objetivo, mas cuja única base é psicológica.

Influído por tais críticas, Kant afirma que o postulado da causalidade é um juízo sintético a priori, pois acrescentamos ao sujeito um predicado que lhe é estranho e é a priori, porque é um juízo necessário, universal e independente da experiência. É o produto de uma síntese das categorias de causa e efeito (pois, para Kant, são apenas categorias) com o "esquema" sensível da sucessão regular. Portanto, só tem um valor subjetivo, e quando aplicado às coisas transfenomenais leva inevitavelmente a conclusões transcendentes e eminentemente problemáticas.

Alguns cientistas modernos negam objetividade ao princípio de causalidade, que implicaria a existência de leis naturais, supostamente reais, o que não é possível provar, nem tampouco que há leis estáticas que regem os fenômenos, cuja fixidez é necessária para dar base ao princípio de causalidade. Em oposição a toda essa postulação negativa, os filósofos positivos e concretos afirmam a objetividade do princípio de causalidade, e que esse princípio é analítico e apoditicamente verdadeiro. Os negativistas têm um conceito de causa e efeito que não é o que na filosofia positiva e concreta se considerou como tais. Necessariamente o que começa a ser, antes que começasse a ser, era um mero possível. Ora, o que é um mero possível não pode surgir na existência, não ser que outro ser a comunique. Consequentemente, o que começa a existir, necessariamente exige outro ser que lhe dê a existência, ou seja, exige causa. O mero possível não é existente, enquanto é mero possível, pois do contrário não seria apenas ele mas um possível já atualizado. O que ainda não é, e vem a ser, começa a ser o que é. Tem estes argumentos um rigor de necessidade.

Se o mero possível começa a ser, só pode ser por si, por outro ou pelo nada. Por si não é cabível, porque ainda não é, pois é um mero possível; pelo nada, ninguém poderá afirmar que o nada é capaz de infundir, de comunicar ser, pois não tem. Resta apenas ser por outro, já que é impossível admitir outra saída. O mero possível é o que é indiferente para ser ou para não ser. O que é por si indiferente à existência como poderia realizar a sua existência? Necessita de outro para ser, sua causa. O ser contingente é mero possível e de per si insuficiente para existir. Necessita, pois, de outro ser que lhe comunique ser. E tem de ser outro ser, porque como o nada poderia comunicar ser? Não pode vir de si mesmo, pois então não seria um mero possível de ser, mas já existente. Restaria apenas admitir que o que começa a ser não começa a ser, e já é desde todo o sempre. Nesse caso ter-se-ia de negar o devir, o vir-a-ser das coisas, para afirmar a imutabilidade absoluta de tudo, pensamento a que chegou o parmenidismo pela mesma dificuldade de compreender o devir.

Tais argumentos são lógicos e ontológicos. Não faríamos porém uma prova concreta sem o fundamento ôntico, que nos dá a experiência externa e a interna, que devemos conexionar com o lógico e o ontológico para alcançar a verdade concreta. Nossa experiência nos demonstra que há seres que principiam a ser no precípuo instante que começam a ser, e que antes não eram. Se tal se dá, tem uma causa. Nosso psiquismo, nosso corpo, nossa experiência interna e externa nos revelam a realidade de tais casos. A experiência interna como a externa nos provam que antes começam a ser os quais antes não existiam. Plantamos a semente, ergue-se o arbusto, cresce a árvore, desabrocham-se as flores, surgem os frutos... Se não há causa, se não há o que infunde, o que comunica ser a tais coisas, então o nada seria criador, infundiria e comunicaria o que não tem.

Entende-se por causa o que infunde, o que comunica ser a alguma coisa. No exame das causas, como é fácil ver, muitas delas, de certo modo, permanecem no efeito, causando-o ainda como a causa material permanece na coisa material, constituindo-a. Se não houvesse causas, toda a ciência se afundaria na incompreensão. Desde Sócrates o primeiro papel do filósofo consiste em clarear os conceitos, buscando alcançar a pureza eidética dos mesmos. Ora se partimos da intencionalidade humana ao considerar o conceito causa, desde logo se entende o que põe em causa, o que dá surgimento a alguma coisa, qüididativamente distinta; ou seja, outra que o que a põe em causa. É algo que infunde ser, que comunica ser, que dá ser, ou que constitui ser de alguma coisa. Como o influxo e a comunicação de ser se dão de vários modos, os antigos classificavam as causas segundo tais modos, o que levou Aristóteles a compendiá-las em quatro causas principais: a eficiente, a formal, a material e a final. Como um ente que começa a ser não pode comunicar o ser a si mesmo, pois então já existiria antes de existir, o que é absurdo, e aceito esse absurdo, tudo já era, desde sempre, o que é, e isso nos levaria a outros absurdos, é impossível, é incedível e é ainda necessário que o ser seja comunicado ao ente que começa a ser. O conceito de causa, tomado assim (e só assim é apoditicamente certo, e só assim é adequado à intencionalidade eidética), quando pronunciamos o termo causa, na filosofia, desfazem-se todas as confusões que filósofos modernos espalharam.

Há argumentos que objetam a concepção de causa e efeito como na verdade o princípio de causalidade que nos é dado pela experiência e pela indução. Ora, a experiência e a indução não têm validez universal. Mas aqueles que combatem a experiência e a indução, ou pelo menos que restringem o seu valor, que o princípio de causalidade, em sentido materialiter, pende da experiência e da indução, não porém formaliter, pois formalmente o que nele se predica, decorre necessariamente da natureza do sujeito. O ter o que começa a ser uma causa decorre necessariamente do começar a ser o que é, pois do contrário não poderia começar a ser o que é. Outros partem do lado inverso: afirmam que é uma criação a priori e não fundada na experiência, por isso não tem valor absoluto. Não é verdade que tal princípio nos surja apenas a priori. O ser humano apreende pela experiência tais fatos, e pelo entendimento capta a razão de conexão entre o que infunde e comunica o ser, e o novo ser que surge. O princípio de causalidade não é apenas um enunciado apriorístico, mas o resultado de uma operação do espírito humano, fundando-se nos fatos da experiência.

Alguns afirmam que há muitos fenômenos cientificamente comprovados graças aos microscópios eletrônicos, que nos revelam fatos que se realizam sem leis, ao acaso, o que prova que o princípio de causalidade não é universal. A ciência não conheceu suas leis desde o início. Muitos fatos que pareciam obedecer ao acaso foram, depois, compreendidos como obedientes a leis. Onde a ciência não as capta, estabelece leis prováveis, formula hipóteses, mas daí afirmar a ausência delas é um salto sem justificação. A lei tem sua origem do lat. lex, legis, do mesmo radical lec, leg, lig, que encontramos em intelecto, seleção, ler, de legere, elegere, lição, logos (palavra, verbo, lei, princípio, etc.). O termo lex vem de ligare, ligar, o que liga, o que conexiona, o que prende a... Na ideia de lei há o sentido do que é obrigado a... E quando se fala em leis da natureza entende-se a intencionalidade, as inclinações estáveis, que regem nas coisas e exigem o modo constante e uniforme de agir. Os escolásticos admitiam dois tipos de leis: as in actu primo, que são as próprias inclinações, e as in actu secundo, que é o exercício da constância e da uniformidade no operar; ou seja, o modo constante e uniforme pelo qual surgem os acontecimentos naturais. No primeiro caso, a lei é imutável; no segundo possunt esse quaedam variationem iuxta diversitatem circunstantiarum vel concausarum et dependenter..., ou seja: podem sofrer certas variações, dependentes da diversidade das várias causas que cooperam no evento. Quando alguns cientistas falam em leis prováveis pensam que na natureza há essa possibilidade que afirmam, esquecendo que a probabilidade surge apenas do não conhecimento preciso destas leis, julgadas assim, que provavelmente sejam elas as que regulam os fatos em exame. Os antigos admitiam leis racionais, empíricas e inclusive estatísticas, chamadas dinâmicas, fundadas apenas na regularidade verificada, que subdividiam em leis lógicas e leis ontológicas que, neste setor, no da lógica e no da ontologia são certíssimas, embora não o sejam no da ciência natural.

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