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Causa Final

Fim

Para os gregos telos é o fim como meta, a extremidade a que um termo tende alcançar. É o fim, o para que uma coisa é feita. Bionômica e psicologicamente a idéia de fim encontra uma base no espetáculo da própria vida e da nossa atividade que sempre é intencional, sempre tende para... No conjunto dos fatores histórico-sociais vemos em toda a atividade cultural do homem, bem como no contorno ecológico, em toda a natureza, um tender para, uma intencionalidade universal para alcançar uma meta. Os fins ou as diversas modalidades nos quais nos aparece a finalidade, mostram-nos uma pluralidade de aspectos que permitiram estabelecer diversas acepções, como o fim pensado, o que se realiza psicologicamente, o finis operis, isto é, o papel que uma obra realizada deve cumprir, como a finalidade de um elevador é de erguer cargas, ou finis operantis, o fim que leva a uma ação, como o salário que move o operário a trabalhar, o lucro ao capitalista, a glória ao artista desinteressado, o ideal ao idealista ético.

Finalidade intrínseca é uma unidade, na qual as partes são ordenadas, segundo o bem do todo, como a dos órgãos num corpo vivo, e finalidade extrínseca, quando a ordem de uma unidade tende ao bem de um outro ser. A causa final não é uma causa que atue cronologicamente após o efeito. Ela antecede como toda causa. O tender para de um ente, no qual o termo realiza uma perfeição, é a finalidade de um ente. Mas esse termo pode ser um termo atingível, encerrando-se sua atividade, ou uma via atingida na qual perdura a atividade. A farinha amassada e cozida tende a formar-se pão. Ela sofre tudo isso pela causa final de se tornar pão para atender essa finalidade, que não é dela, que é extrínseca a ela, mas lhe é dada pelo homem. Não é da finalidade da farinha (intrinsecamente considerada) tornar-se pão, mas uma finalidade que lhe é extrínseca.

Em todo ato psicológico em geral, intelectual ou não, há uma intenção, um tendere in. Finis est prima in intentione, ultima in executione, dizem os escolásticos (o fim é primeiro na intenção e último na execução). Fim significa a meta, um para onde tende alguma coisa, é um termo para o qual algo se dirige. Ora, onde há ação, há um termo para o qual a ação tende, sem o qual aquela não há, pois seria absolutamente estática e não tenderia para nada. Tender para o nada não pode ser a meta de uma ação, mas sim para algum termo positivo. Pois bem, esse termo para o qual tende a ação é o fim, próximo ou remoto. Tudo o que devém (que se torna), realiza-se em direção a algo. E isto e nada mais do que isto é o que se pode entender concretamente por fim. Ora, se toda ação, tudo o que devém, tende para algo, esse tender tem de ser proveniente, essa tendência tem de preceder à ação, pois o que tende para... está potencialmente disposto para o que tende, do contrário o termo para o qual tende seria impossível, o que é absurdo, pois seria tender para nada, o que seria nada tender. O fim tem de ser de certo modo da tendência do agente. Os antigos dividiam o fim em: finis qui, é o fim objetivo, o objetivo, o objeto para o qual tende; finis cui, o fim subjetivo para que tende o objeto, e finis quo, o fim formal, o pelo qual a intenção se aquieta ao atingi-lo.

Deixamos de consignar aqui as diversas outras divisões de fim, que os antigos estudavam, para apenas salientar a do fim intrínseco e a do fim extrínseco. O primeiro é o que é imanente à coisa, como a conservação individual é um fim intrínseco de toda unidade física, e o fim que é dado à coisa, que é o fim extrínseco. Assim o pão é uma finalidade extrínseca do trigo, porque este intrinsecamente não tende para tornar-se pão, mas para conservar-se, perpetuar-se, multiplicar-se, reproduzir-se. O homem é que lhe dá outro fim, extrínseco ao trigo.

As mais famosas sentenças sobre o princípio de finalidade se reduzem aos seguintes adágios da filosofia positiva e concreta:

1)

Todo agente atua em direção a um fim. Toda atuação implica um termo de partida e um termo para onde tende, sem o qual a atuação seria nula. É necessário, pois, que quem atua, atue em direção a um fim.

2)

Daí a sentença: Todo agente, necessariamente, atua tendente a um fim, que já expressa a apoditicidade que faltava à primeira sentença. O fim conexiona pois a ação do agente e a sua realização, o seu produto, a obra.

3)

Consequentemente: Toda obra está conexionada (ordenada) a um fim. Esta sentença decorre necessariamente das outras.

4)

O que devém, devém tendente para um fim. É outra sentença que decorre das anteriores.

5)

Todo efeito é termo de uma ação. Toda causa, enquanto atua, tende para um fim.

6)

O que é contingente (o que exige uma causa eficiente para ser) tem uma causa final (é termo de uma ação). É uma decorrência do princípio de causalidade já demonstrado, pois toda ação, tendendo para um fim, comunica ao que faz uma tendência para um termo.

7)

Um agente intelectual, enquanto o é, atua com ciência do fim, mas o fim é considerado formalmente. Portanto, o agente intelectual atua formalmente em direção a um fim. O agente não intelectual atuará materialmente. O agente intelectual tem uma intenção do fim.

Crítica

Examinemos os argumentos dos negativistas. Comecemos pelos empiristas e Hume que negavam o princípio de finalidade. Kant chama-o de princípio teleológico (do gr. telos, fim), que considerava apenas uma crença dos homens, produto da nossa mente e nada mais. Para Schopenhauer e Hartmann era apenas uma intenção inconsciente da natureza. Nenhum negativista nega a finalidade do agente intelectual, enquanto o é. Negam apenas nas coisas não-intelectuais a presença de idéia do fim? Mas então não seriam não-intelectuais, mas intelectuais. Como não têm, nesse caso não atuam segundo um fim, uma meta. Mas o erro está aí. A finalidade não é apenas uma nota consciente. Todo agente atua por natureza ou pelo intelecto. O que age pelo intelecto, age tendendo para um fim. O que age por natureza, age tendendo para um fim, porque o efeito é sempre proporcionado às suas causas. Na verdade, o verdadeiro nome de causa é fim. Toda causa, enquanto tal, tende a realizar um efeito, que lhe é proporcionado.

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