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Adaptação Psicológica

Adaptação

Todo organismo vivo é um ser de máxima heterogeneidade, onde a intensidade prepondera sobre a extensidade, e que se heterogeneiza ante o mundo ambiente, onde está imerso, outro e oposto a ele, mas do qual naturalmente depende. Mostra-nos a biologia que esse ser vivo, organizado, mantém trocas com os elementos ambientais; que ora os incorpora ao organismo por assimilação, ora dejecta-os quando não lhe é permitida essa assimilação, ou também por oferecer perigo. Suas necessidades vitais são aplacadas por essa incorporação de bens, que lhe permitem que se torne apto à vida, que perdure. O aplacamento de suas necessidades se processa, para se tornar apto ao meio ambiente, pelas trocas que terá de efetuar, isto é, por sua adaptação, que é um estado de adequação, de equilíbrio dinâmico com o meio ambiente, bem como o que atua sobre ele. Como organismo, múltiplo em suas funções, estas porém não são de uma rigidez invariante, pois admitem dentro do seu campo funcional, uma escalaridade, que lhe permite pôr-se de acordo, no todo ou em parte, com o meio, quer por modificações internas, quer por modificações externas, a fim de sobreviver.

Essas adaptações, cujo tema pertence sobretudo à biologia e ciências afins, se dão dentro de uma escala limitada, além da qual o organismo não pode ultrapassar, por sobrevir-lhe, inevitavelmente, a morte. A adaptação é assim restrita às disposições do organismo. Constrói a biologia, desta forma, um esquema funcional da adaptação, que se processa apela acomodação (ad commodo), conformação, dar a forma ad, para o meio ambiente. E acomoda-se o ser vivo no meio ambiente com o que tem, com o conjunto de seus esquemas biológicos, tornando-se como as coisas. E em face delas e segundo esses esquemas que se acomodam, e dentro do seu âmbito, retira do meio ambiente o que lhe é assimilável, de ad simul, de semelhante a..., que é a assimilação.

Deste modo funciona a adaptação:

a)

acomodação – exteriorização dos esquemas ad...;


b)

assimilação – tornar semelhante segundo os esquemas, ao que se assemelha aos esquemas, ad simul.

Na adaptação biológica há: 1) incorporação dos elementos assimilados pelas funções metabólicas do organismo; 2) criação de novos esquemas globais que se estruturam segundo as experiências porque passam, que lhes dão nova ordem, os quais enriquecidos das novas experiências vão, por sua vez, acomodar-se, já incluindo memorizadas as experiências anteriores, o que explicaria as adaptações adquiridas, distintas das fixas, que seriam as normais dos esquemas biológicos. Discute-se aqui se há adaptações adquiridas ou não, e se elas são apenas possibilidades atualizadas das adaptações fixas, isto é, do conjunto dos esquemas biológicos previamente dados.

Como os seres vivos são mais ou menos complexos, entre eles conhecemos os que em seu funcionamento revelam uma diferenciação tal de funções, que são portadores de um sistema psíquico complexo, como os animais superiores e entre eles, o homem, que deles se diferenciou ainda mais por ser portador de um espírito (nous), que é criador.

E esse sistema psíquico, como se observa, funciona dentro do campo da biologia por adaptações que levam à incorporação de elementos do mundo exterior assimilados, mas se distingue por construir seus próprios esquemas (esquemas psíquicos), que não funcionam por incorporação biológica, mas por assimilações de outra ordem, o que leva distinguir a psicologia das outras ciências quanto a este ponto e torná-la, por sua vez, irredutível à biologia, em oposição a todos os que se deixam empolgar pelas interpretações biológicas (como no biologismo) e que pretendem explicar os fatos psíquicos reduzindo-os a meras operações biológicas.

Os esquemas naturais bio-fisiológicos que dispomos nos permitem uma adaptação (acomodação + assimilação), condicionada ao seu alcance e que, para conhecermos além ou aquém, precisamos de outros esquemas, que a eles agregamos, como aparelhos técnico-científicos, etc. Nossos meios de contato com o mundo exterior são de âmbito limitado. Além disso os órgãos dos sentidos não alcançam todos os campos dos fatos, mas apenas um muito limitado que, graças à construção de outros esquemas, nos é permitido traduzi-los aos que nos são naturais. Patenteia-se para nós que dispondo apenas de nossos esquemas psíquicos, não poderíamos conhecer além de uma faixa diminuta do existir. Mas, e eis o ponto importante e que distingue o homem dos animais: somos capazes de construir novos esquemas e com eles conhecer mais. E esse ser, aqui, é poder. E podemos, não só com os esquemas psíquicos que dispomos, estruturá-los de modo a construir novos esquemas globais, que permitam novas acomodações e novas assimilações, ampliando assim as nossas possibilidades, como também construir meios, utilizar elementos do mundo exterior, ordenados sob novos esquemas, para que sirvam de instrumentos, não só de domínio dos fatos exteriores, mas também para conhecê-los.

Conhecer e dominar, dominar e conhecer, temos aí dois aspectos importantes, que distinguem o homem dos animais, pois estes dispõem apenas de meios fisico-psicológicos para adaptarem-se ao meio exterior.

Dessa forma a adaptação do homem é já noética e não puramente psíquica. E é noética porque o nous se manifesta nessa capacidade criadora de esquemas. O homem é portador de um psiquismo, mas de um psiquismo que é capaz de fundar um espírito.

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