Na economia da salvação, Jesus Cristo utilizou elementos materiais para manifestar sua graça divina, revelando que a matéria, criada por Deus, pode ser veículo de santificação. Estes elementos prefiguram os sacramentos da Igreja e demonstram que Deus age por meio da criação material para comunicar sua vida divina aos homens.

Batismo no Jordão
"Logo que foi baptizado, Jesus saiu da água. E eis que se abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como pomba, e vir sobre ele."
Mt 3,16
Transformação da Água em Vinho
"Jesus ordena-lhes: “Enchei as talhas de água”. Eles encheram-nas até em cima. “Tirai agora” – disse-lhes Jesus – “e levai ao chefe dos serventes”. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho me­lhor até agora”."
Jo 2,7-10
Caminhada sobre as Águas
"Vendo-os cansados de remar, (porque o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles, andando sobre o mar; e fez menção de passar adiante. Quando eles o viram caminhar sobre o mar, julgaram que era um fantasma e gritaram porque todos o viram e se assustaram. Mas ele falou-lhes logo e disse: "Tende confiança, sou eu, não temais." Subiu em seguida para a barca a ir ter com eles, e o vento cessou. Ficaram extremamente estupefactos,"
Mc 6,48-51
Significado Teológico

A água representa a purificação, o renascimento e a vida nova em Cristo, prefigurando o Batismo sacramental que regenera o cristão.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus in Serm. de Epiph.
Pois, como foi dito, quando nosso Salvador foi batizado, toda a água já ficava purificada para o nosso batismo, para que a graça do batismo pudesse ser administrada às gerações vindouras. Convinha também que fossem designadas no batismo de Cristo todas as graças que por Ele mesmo são concedidas aos fiéis, daí se dizer: "Batizado Jesus, imediatamente saiu da água".
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus in Serm. 1 in Dom. infra Oct. Epiph.
Cristo, depois de ter nascido para os homens, renasce nos sacramentos; para que, assim como então nós o admiramos gerado de uma mãe incorrupta, assim também agora o recebamos submergido em água pura. Pois a mãe gerou o Filho, e permaneceu casta; a água lavou Cristo, e tornou-se santa. Enfim, o Espírito Santo, que então esteve presente no útero, agora o circundou de luz nas águas; aquele que santificou Maria, agora santifica as correntes. De onde diz: e viu o Espírito de Deus descendo. Fonte
Multiplicação dos Pães
"Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo."
Mt 14,19
Instituição da Eucaristia
"Enquanto comiam, Jesus tomou pão e o benzeu, e o partiu, e deu-o a seus discípulos, dizendo: "Tomai e comei, isto é o meu corpo."
Mt 26,26
Discípulos de Emaús
"Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram, dizendo: "Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina". Entrou então para ficar com eles. E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e distribuiu-o a eles. 31 Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém, ficou invisível diante deles."
Lc 24,28-30
Significado Teológico

O pão representa o alimento da vida eterna, prefigurando a Eucaristia como verdadeiro Corpo de Cristo, dado em sacrifício pela redenção dos homens.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus de Cons. Evang.
Pois eles não andavam com os olhos fechados, mas havia algo que não lhes permitia reconhecer o que viam; o que certamente a névoa e algum tipo de vapor costumam causar. Não porque o Senhor não pudesse transformar sua carne, para que fosse realmente uma aparência diferente daquela que costumavam contemplar; visto que também antes da paixão foi transformado no monte, de modo que seu rosto resplandeceu como o sol. Mas agora não aconteceu assim: pois não inadequadamente entendemos que este impedimento nos olhos deles foi causado por Satanás, para que Jesus não fosse reconhecido. Mas foi tão somente permitido por Cristo até o sacramento do pão, para que, pela participação na unidade de seu corpo, se entendesse que o impedimento do inimigo fora removido, para que Cristo pudesse ser reconhecido. fonte
Bodas de Caná
"Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho me­lhor até agora”. Esse foi o primeiro milagre de Jesus"
Jo 2,9-11
Última Ceia
"Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.* Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai”."
Mt 26,27-29
Significado Teológico

O vinho simboliza a alegria do Reino de Deus e o Sangue redentor de Cristo na Eucaristia, selando a nova e eterna aliança.

Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus in Matth.
E nomeando o sangue, anuncia previamente a sua paixão, dizendo "que será derramado por muitos". E, novamente, expõe a causa da morte, quando acrescenta "para a remissão dos pecados", como se dissesse: o sangue do cordeiro foi derramado no Egito para a salvação dos primogênitos do povo de Israel, este, porém, para a remissão dos pecados. fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Remígio de Auxerre — Remigius
Assim pois, se lê que Moisés tomou o sangue do cordeiro e o colocou em um cálice, e tendo mergulhado um ramo de hissopo, aspergiu o povo, dizendo: "Este é o sangue do testamento que Deus vos ordenou" (Êxodo 24,8). fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus in Matth.
Dizendo isto, mostra que sua paixão é um mistério da salvação humana, por meio do qual também consola seus discípulos. E assim como Moisés disse: "Isto será para vós um memorial sempiterno" (Êxodo 12,24), também Cristo fala, como São Lucas relata: "Fazei isto em memória de mim" (São Lucas 22,19). fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus in Matth.
E como lhes tinha falado da paixão e da cruz, consequentemente introduz o discurso sobre a ressurreição, dizendo: Digo-vos, pois, que não beberei mais deste fruto da videira até aquele dia, em que o beberei de novo convosco no reino de meu Pai. Ele chama à ressurreição o reino. E disse isto sobre a ressurreição, que haveria de beber com os apóstolos, para que ninguém considerasse a ressurreição como uma aparência fantástica; e por isso, persuadindo os homens sobre a ressurreição de Cristo, disseram: "Comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos". Por isso, demonstra que o verão ressuscitado, e que estará novamente com eles. Quando diz "novo", deve-se entender claramente que é de um modo novo, isto é, não tendo mais um corpo passível, nem necessitando de alimento: pois após a ressurreição não comeu nem bebeu porque precisasse de comida, mas para confirmar a certeza da ressurreição. E como há alguns herejes que usam água em vez de vinho nos sagrados mistérios1, demonstra por estas palavras que, quando transmitiu os sagrados mistérios, deu vinho, que também bebeu depois de ressuscitado: por isso diz "deste fruto da videira"; pois a videira produz vinho, não água. fonte

1 Por exemplo, os Encratitas, seguidores de Saturnino e Taciano no segundo século. Ver Cânones Apostólicos 43 e 45 da Tradução de Johnson.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Glossa Ordinária — Glossa
Assim como a refeição corporal se faz pelo alimento e pela bebida, do mesmo modo, sob as espécies de alimento e bebida o Senhor nos preparou uma refeição espiritual. Foi também conveniente para significar a paixão do Senhor, que este sacramento fosse instituído sob dupla espécie. Pois na paixão Ele derramou seu sangue, e assim seu sangue foi separado do corpo. Foi necessário, portanto, para representar a paixão do Senhor, propor separadamente o pão e o vinho, que são o sacramento do Corpo e do Sangue. Deve-se saber, contudo, que sob ambas as espécies está contido Cristo inteiro: sob a espécie de pão está o sangue junto com o corpo, e sob a espécie de vinho está o corpo junto com o sangue. fonte
Cura com Óleo pelos Apóstolos
"Ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam"
Mc 6,12-13
Unção dos Enfermos pelos Sacerdotes
"Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o restabelecerá. Se ele cometeu pecados, lhe serão perdoados."
Significado Teológico

O óleo representa a unção do Espírito Santo, prefigurando os sacramentos da Confirmação e da Unção dos Enfermos.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável
De onde é evidente que este costume da santa Igreja, de ungir os energúmenos ou quaisquer outros enfermos com óleo consagrado pela bênção pontifical, foi transmitido pelos próprios apóstolos. fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo
Ou para que seja um testemunho do trabalho do caminho que suportavam por eles, ou como o pó dos pecados dos pregadores que se converte contra eles mesmos. Segue-se "e saindo, pregavam que fizessem penitência; e expulsavam muitos demônios, e ungiam com óleo muitos enfermos, e eram curados". Que ungissem com óleo, somente São Marcos o narra; porém São Tiago, em sua epístola canônica, diz coisas semelhantes. Pois o óleo cura as fadigas, e é causa de luz e de alegria. O óleo da unção significa, portanto, a misericórdia de Deus, o remédio da enfermidade e a iluminação do coração, tudo isso operado pela oração. fonte
Cura do Cego de Nascença
"Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. Enquanto for dia, cumpre-me terminar as obras daquele que me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar. Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo." Dito isso, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois lhe disse: "Vai, lava-te na piscina de Siloé". O cego foi, lavou-se e voltou vendo.
Significado Teológico

O barro evoca o ato criador de Deus ao formar o homem do pó da terra (Gn 2,7) e a recriação operada por Cristo — nova criação em quem crê nele.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Tratados sobre o Evangelho de João, XLIV
Aquele que formou o homem do barro no princípio é o mesmo que agora faz barro para abrir os olhos do cego. A terra misturada com a saliva é o Verbo feito carne: a divindade une-se à humanidade para restaurar o que fora corrompido desde Adão. O mesmo Criador, o mesmo barro, mas agora o dom é maior que a criação primeira.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo
Porque ele não se envergonhou de sua cegueira anterior, nem temeu o furor do povo, nem recusou mostrar-se a si mesmo, para proclamar seu benfeitor. Segue-se "Diziam-lhe, pois: Como foram abertos os teus olhos?" De que modo isto foi feito nem nós sabemos, nem o próprio que foi curado sabia: mas o que de fato aconteceu, ele conhecia, porém não podia compreender o modo. Por isso segue-se: "Respondeu: Aquele homem que se chama Jesus fez barro e ungiu meus olhos." Vê como ele é veraz. Não disse de onde fez: pois o que não sabia, não diz; nem sabia que Ele havia cuspido na terra. Mas que Ele o ungiu, aprendeu por meio do sentido do tato. Segue-se: "E disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te." E disso também testemunhou pelo ouvido, pois reconheceu a voz dele pela discussão com os discípulos. E como se preparara para uma coisa apenas, isto é, para que tudo lhe fosse persuadido por aquele que ordenava, acrescenta: "E fui, lavei-me e vi." fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo
Os judeus, portanto, perguntando "onde está ele?", queriam encontrá-lo para levá-lo aos fariseos; mas, como não o tinham, levam o cego; por isso segue: levam aos fariseos aquele que fora cego, para que certamente o interrogassem com mais veemência. Por isso também o Evangelista acrescenta: era, porém, sábado quando Jesus fez o barro e abriu seus olhos; isto é, para mostrar a má disposição deles e a causa pela qual o procuravam; a saber, para encontrar ocasião contra ele e para depreciar o milagre por causa da suposta transgressão da lei: o que também é manifesto pelo que se segue; segue-se, pois: então, novamente, os fariseus perguntavam-lhe como havia recobrado a vista. Vê, porém, como o cego não se perturba: pois quando às turbas ele dizia sem perigo, não era tão grande dizer a verdade; o admirável, porém, é agora que, estando em maior perigo, nem nega, nem diz coisas contrárias às anteriores; segue-se, pois: Ele, porém, lhes disse: pôs lodo sobre meus olhos, e lavei, e vejo. Isso ele fala mais sucintamente àqueles que já tinham ouvido: pois não disse o nome de quem falou, nem que lhe disse 'vai e lava'; mas imediatamente: pôs lodo sobre meus olhos, e lavei, e vejo; e assim sofreram o contrário do que queriam: pois o trouxeram para que negasse, mas dele aprenderam com mais certeza. fonte
Transfiguração no Tabor
"Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele. […] veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: 'Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição; ouvi-o'."
Aparição após a Ressurreição
"Aquele discípulo que Jesus amava disse então a Pedro: 'É o Senhor!' […] Quando saltaram em terra, viram brasas acesas, tendo por cima peixe e pão. Jesus lhes disse: 'Trazei alguns dos peixes que apanhastes'. […] Disse-lhes Jesus: 'Vinde comer!' Nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: 'Quem és tu?', porque sabiam que era o Senhor. Jesus aproxima-se, toma o pão e o distribui entre eles; e faz o mesmo com o peixe. Foi esta a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos, depois de ressuscitado dos mortos."
Significado Teológico

A luz revela Cristo como "Luz do mundo" (Jo 8,12) e o fogo manifesta a presença purificadora do Espírito Santo, que desce em línguas de fogo em Pentecostes.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Remígio de Auxerre — Catena Aurea, São Mateus, cap. 17
A claridade de sua visão, que o Senhor prometera aos seus discípulos, foi cumprida nesta transfiguração ocorrida no monte depois de seis dias; por isso diz: "E após seis dias, tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão".
Catena Aurea — Padres da Igreja
Orígenes de Alexandria — Catena Aurea, São Mateus, cap. 17
Ou porque em seis dias foi feito todo este mundo visível; aquele que transcende todas as coisas do mundo pode subir à montanha excelsa, e contemplar a glória do Verbo de Deus.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Pois Ele apareceu aos apóstolos tal como será no tempo do juízo. Ninguém, porém, pense que Ele perdeu sua forma e aparência primitivas, ou perdeu a realidade de seu corpo, e assumiu um corpo espiritual ou aéreo; mas como Ele se transfigurou, o Evangelista demonstra dizendo e seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a neve. Onde o esplendor do rosto é mostrado, e o brilho das vestes é descrito, a substância não é suprimida, mas a glória é transformada. Certamente o Senhor transformou-se naquela glória com a qual virá depois em seu reino. A transformação acrescentou esplendor, não retirou o semblante, ainda que o corpo se tornasse espiritual; por isso também as vestes foram mudadas, e ficaram tão brancas que outro Evangelista disse que nenhum lavadeiro sobre a terra poderia fazê-las assim; mas tal corpo é corpóreo e sujeito ao tato, não espiritual e aéreo, que ilude os olhos e é visto apenas como um fantasma.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Catena Aurea, São João, cap. 21
Quando, porém, era noite, antes da presença do sol, Cristo, os profetas nada apanharam: porque, embora tentassem corrigir uma nação, Israel, esta, no entanto, frequentemente caía na idolatria.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Catena Aurea, São João, cap. 21
Ou pelos duzentos côvados expressa-se a dupla virtude da caridade: pois pelo amor a Deus e ao próximo nos aproximamos de Cristo. O peixe assado é Cristo que padeceu: Ele dignou-se ocultar nas águas do gênero humano, quis ser capturado pelo laço de nossa noite; e aquele que se fez peixe para nós pela humanidade, tornou-se para nós pão, restaurando-nos pela sua divindade.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São Gregório Magno — Catena Aurea, São João, cap. 21
A São Pedro foi confiada a santa Igreja; a ele especialmente é dito: apascenta minhas ovelhas. O que depois se revela por palavras, agora é significado por obras. Ele mesmo conduz os peixes à solidez da margem, porque mostra aos fiéis a estabilidade da pátria eterna. Isto ele fez com palavras, isto fez com epístolas, isto faz cotidianamente com sinais de milagres. Mas quando se diz que a rede estava cheia de grandes peixes, acrescenta-se também quantos; e isto é o que segue: cheia de grandes peixes, cento e cinquenta e três.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Misticamente, o peixe assado é Cristo que padeceu; Ele mesmo é o pão que desceu do céu; a este se incorpora a Igreja para participar da bem-aventurança eterna; por isso foi dito trazei dos peixes que apanhastes agora: para que todos nós que temos esta esperança, por aquele número septenário de discípulos, pelo qual pode-se entender figurada neste lugar a nossa universalidade, saibamos que comungamos de tão grande sacramento e somos associados à mesma bem-aventurança.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Encontramos, porém, nos quatro Evangelistas, mencionado dez vezes que o Senhor foi visto após a ressurreição. Uma vez junto ao sepulcro pelas mulheres; segunda vez às mesmas regressando do sepulcro, no caminho; terceira vez a Pedro; quarta vez aos dois que iam para a aldeia; quinta vez a muitos em Jerusalém, onde não estava Tomás; sexta vez quando Tomás o viu; sétima vez junto ao mar de Tiberíades; oitava vez a todos os onze no monte da Galileia, segundo São Mateus; nona vez, como diz São Marcos, na última refeição, pois já não haveriam de comer com Ele na terra; décima vez no próprio dia da ascensão, não mais na terra, mas elevado em uma nuvem.
Multiplicação dos Peixes — Mc 6,35-44
"Então mandou-lhes que os fizessem recostar a todos, em grupos, sobre a relva verde. E recostaram-se em grupos de cem e de cinquenta. Jesus, tomando os cinco pães e os dois peixes, elevando os olhos ao céu, abençoou e partiu os pães, e os deu a seus discípulos para que lhos servissem; igualmente repartiu por todos os dois peixes. Todos comeram e ficaram saciados. E recolheram doze cestos cheios das sobras dos pães e dos peixes. Os que tinham comido dos pães eram cinco mil homens."
Mc 6,39-44
Pesca Milagrosa — Jo 21,1-11
"Jesus disse-lhes: 'Ó moços, tendes alguma coisa de comer?' Responderam-lhe: 'Nada.' Disse-lhes: 'Lançai a rede para o lado direito da barca, e encontrareis.' Lançaram a rede, e não a podiam tirar, por causa da grande quantidade de peixes. Então aquele discípulo, a quem Jesus amava, disse a Pedro: 'É o Senhor.' Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica (porque estava nu), e lançou-se à água. Os outros discípulos, que não estavam distantes de terra, senão duzentos côvados foram na barca, tirando a rede cheia de peixes. Logo que saltaram em terra, viram umas brasas acesas, peixe em cima delas, e pão. Jesus disse-lhes: 'Trazei dos peixes que agora apanhastes.' Simão Pedro subiu à barca e tirou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede."
Jo 21,5-11
Significado Teológico

O peixe (ICHTYS) tornou-se símbolo de Cristo e dos cristãos, representando a abundância da graça divina e a missão apostólica de "pescar" almas.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Catena Aurea, São Marcos, cap. 6
Em sentido místico, ao declinar do dia, o Salvador alimenta as multidões famintas: porque ou quando o fim dos séculos se aproxima, ou quando o sol da justiça se põe por nós, somos salvos da corrupção da fome espiritual. Ele convida os apóstolos para a fração do pão, insinuando que diariamente por meio deles nossos corações em jejum devem ser alimentados, isto é, por suas cartas e exemplos. Pelos cinco pães, são figurados os cinco livros da lei mosaica; pelos dois peixes, são figurados os Salmos e os Profetas.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São João, cap. 21
Para mostrar que não era um fantasma o que havia acontecido, ordena que trouxessem dos peixes que eles haviam capturado; segue-se então: Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixes que apanhastes agora. Depois, houve também outro sinal, pois da multidão de peixes a rede não se rompeu; de onde se segue: Subiu Simão Pedro e puxou a rede para terra, cheia de grandes peixes, cento e cinquenta e três; e, sendo tantos, não se rompeu a rede.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Misticamente, na pesca dos peixes, Ele manifestou o sacramento da Igreja, tal como será na última ressurreição dos mortos. E para isso vale observar que foi interposto como se fosse o fim do livro, que seria também como um proêmio da narração que haveria de seguir. O fato de que sete discípulos estiveram naquela pescaria, pelo seu número setenário, significa o fim dos tempos: pois todo o tempo se desenvolve em um período de sete dias.
Entrada Triunfal em Jerusalém — Jo 12,12-19
"No dia seguinte, uma grande multidão de povo, que tinha ido à festa, ouvindo dizer que Jesus ia a Jerusalém, tomou ramos de palmas, saiu ao seu encontro e clamava: 'Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel.' Jesus encontrou um jumentinho, e montou em cima dele, segundo está escrito: Não temas, filha de Sião; eis que o teu Rei vem montado sobre um jumentinho (Zc 9,9). A princípio, os seus discípulos não compreenderam estas coisas, mas quando Jesus foi glorificado, então lembraram-se de que estas coisas tinham sido escritas dele e que eles mesmos tinham contribuído para o seu cumprimento. A multidão que estava com ele, quando chamou Lázaro do sepulcro e o ressuscitou dos mortos, dava testemunho dele. Por isso, lhe saiu ao encontro a multidão, porque ouviram dizer que tinha feito este milagre. Então os fariseus disseram entre si: 'Vedes que nada aproveitais? Eis que todos correm atrás dele.'"
Jo 12,12-19
Significado Teológico

As folhas e ramos representam a vida espiritual frutífera e a renovação da criação em Cristo. A figueira seca adverte contra a aparência de fé sem obras.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Quão grande foi o fruto da Sua pregação, e quão numeroso rebanho de ovelhas dentre aquelas que estavam perdidas da casa de Israel escutou a voz do pastor, deve-se considerar a partir do que é dito: "No dia seguinte, uma grande multidão que havia vindo para a festa, quando ouviu que Jesus estava chegando a Jerusalém, tomou ramos de palmeiras" e assim por diante. Os ramos de palmeiras são louvores, significando a vitória pela qual o Senhor haveria de superar a morte morrendo, e triunfar sobre o Diabo, príncipe da morte, pelo troféu da cruz.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São João, cap. 12
Isto é também o que mais fez com que todos cressem em Cristo, porque Ele não é contrário a Deus; e isto é o que mais levantava o ânimo do povo, que Ele mesmo dizia ter vindo do Pai. Destas palavras, portanto, deduzimos que Ele é Deus: pois hosanna significa "salva-nos"; e a salvação somente a Deus a Escritura atribui. Além disso, porque é verdadeiramente Deus, dizem "que vem", não "que é conduzido"; pois isto é, de certo modo, próprio do servo, aquilo é próprio do senhor. O que também dizem "em nome do Senhor", isso mesmo se estende a Ele: pois não dizem que Ele vem em nome do servo, mas em nome do Senhor.
Cura da Mulher com Hemorragia — Mc 5,21-34
"Jesus foi com ele, e uma grande multidão o seguia e o apertava. Então uma mulher, que há doze anos padecia um fluxo de sangue, que tinha sofrido muito de muitos médicos, e tinha gastado tudo quanto possuía, sem ter sentido melhoras, antes cada vez se achava pior, tendo ouvido falar de Jesus, foi por detrás, entre a turba, e tocou o seu vestido. Porque dizia: 'Se eu tocar, ainda que seja só o seu vestido, ficarei curada.' Imediatamente parou o fluxo de sangue, e sentiu no seu corpo estar curada do mal. Jesus, conhecendo logo em si mesmo a virtude que saíra dele, voltado para a multidão, disse: 'Quem tocou os meus vestidos?' Os seus discípulos responderam: 'Tu vês que a multidão te comprime, e perguntas: Quem me tocou?' E Jesus olhava em roda para ver a que tinha feito isto. Então a mulher, que sabia o que se tinha passado nela, cheia de medo, e tremendo, foi prostrar-se diante dele, e disse-lhe toda a verdade. Jesus disse-lhe: 'Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e fica curada do teu mal.'"
Mc 5,24-34
Significado Teológico

As vestes representam a dignidade humana restaurada pela graça e a nova vida em Cristo — o batizado é revestido da túnica branca como símbolo desta renovação.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Catena Aurea, São Marcos, cap. 5
Uma mulher cheia de fé toca o Senhor, e a multidão o oprime, porque aquele que se vê sobrecarregado pelas diversas heresias ou pelos costumes perversos é venerado somente pela fiel Igreja católica. A Igreja das nações vem atrás, pois, não vendo o Senhor presente na carne, chega à graça da fé depois que se cumpriram os mistérios de sua Encarnação. E assim, quando mereceu ver-se livre dos pecados pela participação nos sacramentos, secou a fonte de seu sangue como pelo contato de suas vestes. E o Senhor olhava em redor para ver aquela que o havia tocado, porque julga dignos de seu olhar e de sua misericórdia a todos os que merecem a salvação.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São Marcos, cap. 5
Esta mulher, famosa e conhecida por todos, por isso não ousava aproximar-se do Salvador abertamente, nem vir diante dele, porque segundo a lei estava impura; por esta razão tocou-o por trás, e não pela frente, porque nem isso ela ousava fazer, e nem mesmo tocou a veste, mas a franja das vestes. Não foi, porém, a franja, mas seu pensamento que a fez salva. Segue-se: pois dizia: se eu tocar ao menos as suas vestes, ficarei salva.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São Marcos, cap. 5
Àqueles, porém, que tocam a Cristo pela fé, as virtudes dele são concedidas conforme sua vontade; por isso segue-se: e imediatamente Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que saíra dele, virando-se para a multidão, dizia: Quem tocou minhas vestes? As virtudes do salvador saem dele não local ou corporalmente, deixando-o de algum modo; pois sendo incorpóreas, saem para os outros e são dadas a outros; contudo não estão fora daquele de quem se diz que saem, assim como as ciências que são transmitidas do mestre aos discípulos. Diz, portanto: conhecendo em si mesmo a virtude que saíra dele, para que entendesses que, com ele sabendo, não ignorando, a mulher recebeu a cura. Mas perguntou quem me tocou?, embora soubesse quem o tocava, para manifestar a mulher que viera, e publicar sua fé, e para que a virtude da obra milagrosa não fosse entregue ao esquecimento. Segue-se: e os seus discípulos lhe diziam: vês a multidão que te comprime, e dizes: quem me tocou? O Senhor, porém, havia perguntado: quem me tocou?, isto é, com pensamento e fé, pois as multidões que me comprimem não me tocam, porque não se aproximam com pensamento e fé. Segue-se: e olhava em redor para ver aquela que fizera isto.
Ressurreição de Lázaro — Jo 11,33-45
"Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: 'Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste.' Depois dessas palavras, exclamou em alta voz: 'Lázaro, vem para fora!' E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus: 'Desatai-o e deixai-o ir.' Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele."
Jo 11,41-45
Catena Aurea — Padres da Igreja
O fato de Lázaro sair do sepulcro significa a alma que se afasta dos vícios carnais; e que saiu envolto em faixas significa que, mesmo os que se afastam das coisas carnais e servem com a mente à lei de Deus, enquanto permanecem no corpo, não podem estar livres das moléstias da carne; o fato de seu rosto estar coberto com um sudário significa que nesta vida não podemos ter conhecimento pleno; e quando diz "soltai-o e deixai-o ir", isto significa que após esta vida serão removidos todos os véus, para que vejamos face a face.
As Bodas de Caná — Jo 2,1-10
"Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: 'Eles já não têm vinho'. Respondeu-lhe Jesus: 'Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.' Disse, então, sua mãe aos serventes: 'Fazei o que ele vos disser.' Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: 'Enchei as talhas de água.' Eles encheram-nas até em cima. 'Tirai agora' – disse-lhes Jesus – 'e levai ao chefe dos serventes.' E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: 'É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora.'"
Jo 2,1-10
Depois de Caná — Jo 2,12-13
"Depois disto, desceu para Cafarnaum, com sua Mãe, seus irmãos e seus discípulos; mas não se demoraram lá muitos dias. Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém."
Jo 2,12-13
Significado Teológico

Os recipientes simbolizam os corações humanos como vasos da graça divina: esvaziados de si mesmos, tornam-se capazes de receber e transbordar a presença de Deus.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Catena Aurea, São João, cap. 2
Como se dissesse: Ainda que parecesse recusar, todavia Ele fará isso. A mãe conhecia-O como misericordioso e compassivo. Segue-se: Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, contendo cada uma duas ou três metretas. Hidrias são chamadas as vasilhas preparadas para conter água; pois em grego a água se diz hydor.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São João, cap. 2
Mas por que antes que enchessem as talhas com água, não fez o sinal? Porque seria muito mais admirável, pois uma coisa é transformar uma substância em outra qualidade, e outra é criar a própria substância do nada. Isto certamente seria mais admirável, mas não pareceria tão crível para muitos. Por isso, muitas vezes Ele se abstém da grandeza dos milagres, querendo tornar mais crível o que fazia. Com isto também derruba doutrinas perversas. Pois, visto que há alguns que dizem que o criador do mundo é outro, Ele realiza muitos milagres a partir de substâncias já existentes; porque se fosse contrário àquele que é o criador do mundo, certamente não usaria elementos alheios para demonstrar seu próprio poder. Ele não tirou a água por si mesmo, e depois mostrou o vinho, mas ordena isto aos serventes, para tê-los como testemunhas do que acontecia; por isso segue-se que Jesus lhes disse: tirai agora, e levai ao mestre-sala.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Se, porém, tivesse ordenado que a água fosse derramada, e ele mesmo tivesse introduzido vinho a partir dos ocultos limites da criação, pareceria reprovar as antigas Escrituras. Mas, quando converteu a própria água em vinho, nos mostrou que a antiga Escritura também é dele: pois por sua ordem as talhas foram cheias. Mas nada tem sabor naquela Escritura se Cristo não for ali compreendido. Sabemos, pois, que a lei data desde os primeiros tempos, isto é, desde o princípio do mundo; dali até este tempo em que agora vivemos é a sexta idade: pois a primeira idade é contada de Adão até Noé, a segunda de Noé até Abraão, a terceira de Abraão até Davi, a quarta de Davi até a transmigração da Babilônia, a quinta até João Batista, a sexta daí até o fim do mundo. Portanto, aquelas seis talhas significam as seis idades, nas quais nunca faltou profecia. As profecias foram cumpridas, as talhas estão cheias. Mas o que significa que continham duas ou três metretas cada? Se tivesse dito apenas três, nossa mente não correria senão para o mistério da Trindade. Mas talvez nem mesmo assim devamos desviar nosso entendimento disso, porque disse duas ou três: pois, nomeados o Pai e o Filho, consequentemente o Espírito Santo deve ser entendido. É necessário, pois, entender o amor mútuo entre o Pai e o Filho, que é o Espírito Santo. Mas há também outro entendimento que não deve ser omitido: as duas metretas são entendidas como os dois gêneros de homens, isto é, judeus e gregos; as três, porém, para significar os três filhos de Noé.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Tal é o nosso Deus e Senhor, excelso para nos criar, humilde para nos regenerar; enquanto caminha entre os homens, suporta as fraquezas humanas e oculta sua divindade. Eis que tem Mãe, parentes e discípulos. E os irmãos procedem de onde procede a mãe, porque a Sagrada Escritura costuma chamar de irmãos não somente os que nascem de uma mesma mãe ou de um mesmo pai, mas de uma mesma família, como ocorre com os primos e os sobrinhos. De onde poderia o Senhor ter irmãos? Maria deu à luz uma única vez. Como crer de outro modo, se nela começou a dignidade das virgens? Abraão era tio paterno de Ló (Gn 12), e Jacó tinha por tio materno a Labão, da Síria (Gn 28), e, no entanto, chamavam-se irmãos (Gn 13).
Cura do Surdo-Mudo — Mc 7,31-37
"Jesus, deixando o território de Tiro, foi novamente por Sidónia ao mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-lhe um surdo-mudo, e suplicavam-lhe que lhe impusesse a mão. Então Jesus, tomando-o aparte dentre a multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos, e tocou com saliva a sua língua. Depois, levantando os olhos ao céu, deu um suspiro, e disse-lhe: 'Ephphata', que quer dizer 'abre-te'. Imediatamente se lhe abriram os ouvidos, se lhe soltou a prisão da língua, e falava claramente. Ordenou-lhes que a ninguém o dissessem. Porém, quanto mais lho proibia, mais o publicavam. E admiravam-se, sobremaneira, dizendo: 'Tudo tem feito bem! Faz ouvir os surdos, e falar os mudos!'"
Mc 7,31-37
Cura do Cego de Betsaida — Mc 8,23-26
"Jesus tomou o cego pela mão e levou-o para fora da aldeia. Pôs-lhe saliva nos olhos e, impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: 'Vês alguma coisa?' O cego levantou os olhos e respondeu: 'Vejo os homens como árvores que andam.' Em seguida, Jesus lhe impôs as mãos nos olhos e ele começou a ver e ficou curado, de modo que via distintamente de longe. E mandou-o para casa, dizendo-lhe: 'Não entres nem mesmo na aldeia.'"
Mc 8,23-26
Significado Teológico

A saliva representa a íntima condescendência de Deus encarnado que, por meio de sua própria humanidade, comunica a cura e a graça divina aos enfermos.

Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São Marcos, cap. 7
Separado da multidão, tomou o surdo e mudo que lhe fora oferecido, para não realizar milagres divinos de maneira manifesta, instruindo-nos a rejeitar a vanglória e o orgulho; pois nada existe em que alguém opere milagres tão bem quanto quando cultiva a humildade e segue a modéstia. Colocou, de fato, os dedos nos ouvidos, podendo curar apenas com a palavra, para mostrar que o seu corpo, unido à divindade, estava enriquecido com o poder divino, assim como a sua operação. Pois, como por causa da transgressão de Adão a natureza humana incorreu em muitos sofrimentos e lesões nos membros e sentidos, Cristo, vindo ao mundo, demonstrou em si mesmo a perfeição da natureza humana; e por isto abriu os ouvidos com os seus dedos e deu a fala com a sua saliva.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Catena Aurea, São Marcos, cap. 7
Para mostrar que todos os membros de seu sagrado corpo são divinos e santos; assim como também a saliva, que soltou a ligação da língua. Pois toda saliva é uma superfluidade; mas no Senhor todas as coisas foram divinas. Segue-se e olhando para o céu, gemeu e disse: Ephphatha, que significa: Abre-te.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Sempre é apartado de pensamentos turbulentos, ações desordenadas e discursos descompostos aquele que merece ser curado. Os dedos que são postos nos ouvidos são as palavras ou dons do Espírito, do qual se diz: "Este é o dedo de Deus". A saliva, por sua vez, é a divina sabedoria, que desata o vínculo dos lábios do gênero humano, para que diga: creio em Deus Pai todo-poderoso, e o restante. Olhando para o céu, gemeu, isto é, ensinou-nos a gemer e a elevar ao céu os tesouros de nosso coração: porque pelo gemido da compunção íntima, a frívola alegria da carne é purificada. Abrem-se, pois, os ouvidos aos hinos, cânticos e Salmos. Desata a língua, para que profira a boa palavra, a qual nem açoites podem impedir.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São Marcos, cap. 8
Ele cuspiu, de fato, e impôs as mãos sobre o cego, querendo mostrar que a palavra divina unida à ação produz efeitos admiráveis. A mão, com efeito, é demonstrativa da operação, enquanto a saliva representa a palavra proferida pela boca. Pergunta-lhe, então, se via alguma coisa, o que não fez com outros que havia curado, significando que, devido à fé imperfeita dos que o trouxeram e do próprio cego, seus olhos não estavam completamente abertos; por isso segue: e olhando, disse: vejo homens como árvores que andam. Porque estava ainda retido na infidelidade, declarava que via os homens obscuramente.
Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Catena Aurea, São Marcos, cap. 8
Ou ainda: ao cuspir nos olhos do cego, impõe suas mãos para que veja, porque removeu a cegueira do gênero humano tanto pelos dons invisíveis quanto pelos sacramentos da humanidade assumida; pois a saliva, que procede da cabeça do homem, designa a graça do Espírito Santo. Mas aquele que com uma só palavra poderia curar totalmente e de uma só vez, cura gradualmente, para mostrar a magnitude da cegueira humana, que dificilmente e como que passo a passo retorna à luz; e nos revela sua graça, pela qual auxilia cada etapa rumo à perfeição. Ademais, quem quer que esteja oprimido por uma cegueira de tão longa duração, que não seja capaz de discernir entre o bem e o mal, vê homens como se fossem árvores caminhando, porque vê as ações da multidão sem a luz do discernimento.
Lado Traspassado na Cruz — Jo 19,31-37
"Os Judeus, visto que era o dia da Preparação, para que não ficassem os corpos na cruz no sábado, porque aquele dia de sábado era de grande solenidade, rogaram a Pilatos que lhes fossem quebradas as pernas, e fossem tirados. Foram, pois, os soldados, e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro com quem ele havia sido crucificado. Mas, quando chegaram a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados traspassou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. O que foi testemunha deste facto o atesta e o seu testemunho é digno de fé e ele sabe que diz a verdade para que também vós acrediteis. Porque estas coisas sucederam para que se cumprisse a Escritura: Não lhe quebreis osso algum. E também diz outro lugar da Escritura: Lançarão o olhar para aquele a quem traspassaram."
Jo 19,31-37
Testemunho do Espírito — 1 Jo 5,8
"São três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e estes três concordam"
1 Jo 5,7-8
Significado Teológico

Os Padres da Igreja, entre eles Santo Agostinho e São João Crisóstomo, veem no sangue e na água que brotam do lado de Cristo a origem sacramental da Igreja: o sangue prefigura a Eucaristia e a água, o Batismo. A Igreja nasce do lado aberto do novo Adão, assim como Eva nasceu do lado do primeiro.

Catena Aurea — Padres da Igreja
O Evangelista usou uma palavra vigilante, para não dizer feriu o seu lado, ou golpeou, mas abriu, para que ali, de certo modo, se abrisse a porta da vida, de onde manaram os sacramentos da Igreja, sem os quais não se entra na vida que verdadeiramente é vida; donde segue e imediatamente saiu sangue e água. Aquele sangue foi derramado para a remissão dos pecados; aquela água tempera a taça da salvação: isto fornece tanto o banho quanto a bebida. Isso prenunciava o que Noé foi ordenado a fazer, uma porta no lado da arca, pela qual entrariam os animais que não haviam de perecer no dilúvio, pelos quais prefigurava-se a Igreja. Por isto a primeira mulher foi feita do lado do homem adormecido; e este segundo Adão, inclinando a cabeça, dormiu na cruz, para que dali se formasse para Ele uma esposa, por aquilo que fluiu do lado do adormecido. Ó morte, donde os mortos revivem! O que há mais puro que este sangue, o que há mais saudável que esta ferida?
Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Catena Aurea, São João, cap. 19
Envergonhem-se, pois, aqueles que não misturam água com o vinho nos sagrados mistérios: parecem, de fato, não acreditar que a água fluiu do lado. Alguém, no entanto, poderia dizer caluniosa mente que havia alguma força vital no corpo, e por isso o sangue fluiu; mas a água que emanou foi um sinal irrefutável; e por isso o Evangelista acrescenta: "e aquele que viu deu testemunho".
Nota — Lírio Católico
Sobre "sagrados mistérios" em Teofilacto
Por "sagrados mistérios" Teofilacto refere-se à Eucaristia e à prática litúrgica de misturar água ao vinho no cálice. A crítica é dirigida aos aquarianos, grupo que utilizava apenas água no lugar do vinho, negando assim, na prática, a realidade histórica da Paixão — da qual brotaram sangue e água do lado de Cristo aberto pela lança.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — 1 Jo 5,8
Santo Agostinho — O Espírito, a água e o sangue. Sermões 5.3.
O que foi que fluiu do lado de Jesus senão o sacramento que os fiéis recebem? O Espírito, o sangue e a água — o Espírito que foi entregue, o sangue e a água que brotaram de seu lado. A Igreja é significada como nascendo deste sangue e desta água.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — 1 Jo 5,8
São Leão Magno — As testemunhas distintas, mas não separadas. Cartas 28.
Isso significa que o Espírito da santificação, o sangue da redenção e a água do batismo são três e são um, permanecendo distintos, e nenhum deles se separa da união com os demais. Esta é a fé pela qual a Igreja vive e se move.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — 1 Jo 5,8
Beda, o Venerável — Como o Espírito deu testemunho. Comentário a 1 João.
O Espírito deu testemunho de que Jesus é a verdade quando desceu sobre ele em seu batismo. Se Jesus não fosse a verdade, o Espírito não teria feito isso. A água e o sangue deram testemunho de que Jesus é a verdade quando ambos fluíram de seu lado no momento em que foi crucificado. Isso não teria sido possível se ele não tivesse tido uma verdadeira natureza humana. Os três são independentes entre si, mas o seu testemunho é um só e o mesmo, porque a divindade de Cristo não deve ser crida separada de sua humanidade, nem sua humanidade deve ser aceita separada de sua divindade. E os três estão presentes também em nós, não em sua forma natural, mas pela união mística de nossas almas com ele. O Espírito nos faz filhos de Deus por adoção, a água da fonte sagrada nos purifica, e o sangue do Senhor nos redime. São invisíveis em si mesmos, mas nos sacramentos tornam-se visíveis para nosso benefício.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — 1 Jo 5,8
Isho'dad de Merv — Tudo realizado na Unidade. Comentários.
As três coisas são uma porque tudo foi realizado pelo único Cristo.
Estáter na Boca do Peixe — Mt 17,22-27
"Enquanto caminhava pela Galileia, Jesus lhes disse: 'O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos homens. Eles irão matá-lo, mas ao terceiro dia ressuscitará.' E eles ficaram profundamente aflitos. Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e lhe perguntaram: 'Teu mestre não paga a didracma?' 'Paga, sim' – respondeu Pedro. Mas quando chegaram à casa, Jesus preveniu-o, dizendo: 'Que te parece, Simão? Os reis da terra, de quem recebem os tributos ou os impostos? De seus filhos ou dos estrangeiros?' Pedro respondeu: 'Dos estrangeiros.' Jesus replicou: 'Os filhos, então, estão isentos. Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar, lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares, abrirás a boca e encontrarás um estater. Toma-o e dá-o por mim e por ti.'"
Mt 17,22-27
A Moeda de César — Mt 22,15-22
"Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?' Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: 'Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!' Apresentaram-lhe um denário. Perguntou Jesus: 'De quem é esta imagem e esta inscrição?' 'De César' – responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: 'Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.' Esta resposta encheu-os de admiração e, deixando-o, retiraram-se."
Mt 22,15-22
Significado Teológico

A moeda encontrada no peixe revela o senhorio de Cristo sobre a criação inteira — o mar, o peixe e o metal lhe obedecem. Manifesta também a liberdade dos filhos de Deus diante das obrigações temporais, cumprindo-as sem se deixar escravizar por elas.

Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Catena Aurea, São Mateus, cap. 22
Ele não responde de maneira pacífica segundo as palavras brandas deles, mas diz coisas ásperas conforme a consciência cruel deles, porque Deus responde às vontades, não às palavras.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São Hilário de Poitiers — Catena Aurea, São Mateus, cap. 22
Também convém que nós devolvamos a Deus as coisas que são d'Ele, isto é, o corpo, a alma e a vontade. Pois a moeda de César está no ouro, na qual sua imagem está gravada. Porém, a moeda de Deus é o homem, no qual está figurada a imagem de Deus. Portanto, dai as vossas riquezas a César, mas guardai para Deus a consciência da vossa inocência.
Catena Moderna — La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — Mt 17,27
São Cirilo de Alexandria — Vai ao mar. Fragmento 212.
Ele poderia também ter tomado a moeda da terra, mas não o fez. Em vez disso, realizou o milagre do mar, para que o mistério, rico em contemplação, pudesse ensinar. Pois somos os peixes arrebatados das amargas agitações da vida — como se tivéssemos sido tirados do mar pelos anzóis dos apóstolos. Na boca do peixe está a moeda real de Cristo, que foi dada em pagamento da dívida por duas realidades: pela nossa alma e pelo nosso corpo. Também pelos dois povos: judeus e gentios. E do mesmo modo pelos pobres e pelos ricos, pois a antiga Lei exigia claramente o pagamento do meio siclo tanto dos ricos quanto dos pobres, igualmente.
Catena Moderna — La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — Mt 17,27
Apolinário de Laodiceia — O peixe como figura da Igreja. Fragmento 88.
Ele se estabelece como senhor do mar, das criaturas nele contidas e de todos os elementos, como o verdadeiro Filho de Deus Pai. Para este peixe ele oferece um tipo da Igreja: outrora presa nas salmouras da incredulidade e da superstição, mergulhada nas profundezas do mar e afundada pelas tormentas e pela angústia dos prazeres mundanos. Mas agora é levantada pelo anzol do ensinamento apostólico e pelas redes de pesca da Palavra para o conhecimento de Deus, por Aquele "que nos chama das trevas para a sua luz admirável" (1Pe 2,9).
Catena Moderna — La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — Mt 17,27
São Jerônimo — Comentário sobre Mateus 17,3.26.
Nosso Senhor era filho de um rei, tanto segundo a carne quanto segundo o espírito — gerado quer da estirpe de Davi, quer da Palavra do Pai onipotente. Portanto, como filho de um rei, não devia impostos; mas, como aquele que havia assumido a humildade da carne, tinha de cumprir toda a justiça. Nós, os miseráveis, que estamos inscritos sob o nome de Cristo e nada fazemos digno de tão grande majestade — por nós Ele se submeteu à cruz e pagou os nossos impostos. Nós, porém, não lhe rendemos tributo em troca; antes, à semelhança dos filhos de um rei, somos isentos.
Catena Moderna — La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia (ed. Thomas C. Oden) — Mt 17,27
São Hilário de Poitiers — Sobre Mateus 17,11.
Não é evidente que os filhos dos reis não estão sujeitos a impostos e que os herdeiros de um reino estão livres de qualquer servidão? Contudo, as palavras de Jesus têm um significado interior. Um dracma era exigido do povo. Ora, a Lei caminha em direção àquela fé que havia de ser revelada por Cristo. Por isso, segundo o costume da Lei, esse mesmo dracma era exigido de Cristo, como se fosse um simples cidadão. No entanto, para demonstrar que não estava sujeito à Lei e para manifestar em Si mesmo a glória da dignidade de Seu Pai, oferece como exemplo o privilégio terreno de que os filhos dos reis não estão sujeitos a censo nem a impostos. Ele é o Redentor de nossa alma e de nosso corpo. Nada deve ser exigido Dele a título de resgate, pois era necessário que o Filho do Rei se distinguisse da sorte comum. Assim, o Filho do Rei opõe um obstáculo à lei dos impostos, a fim de aboli-la — Ele, que está livre da obrigação da Lei.
Unção em Betânia — São João 12,1-11
1. Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde se encontrava Lázaro, que Jesus tinha ressuscitado. 2. Deram-lhe lá uma ceia. Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. 3. Então tomou Maria uma libra de bálsamo feito de nardo puro de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-lhos com os seus cabelos; e a casa ficou cheia de perfume do bálsamo. 4. Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de entregar, disse: 5. "Porque se não vendeu este bálsamo por trezentos dinheiros, para se dar aos pobres?" 6. Disse isto, não porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão, e, tendo a bolsa, roubava o que se lançava nela. 7. Mas Jesus respondeu: "Deixa-a; ela reservou este perfume para o dia da minha sepultura; 8. porque sempre tereis pobres convosco, mas a mim não me tereis sempre." 9. Uma grande multidão de Judeus soube que Jesus estava ali e foi lá, não somente por causa de Jesus, mas também para ver Lázaro, a quem ele tinha ressuscitado dos mortos. 10. Os príncipes dos sacerdotes deliberaram então matar também Lázaro, 11. porque muitos Judeus, por causa dele, retiravam-se e criam em Jesus.
Jo 12,1-11
Catena Aurea — Padres da Igreja
Alcuíno de York — Alcuinus
Isto significa que Ele estava para morrer, e que deveria ser ungido com aromas para o sepultamento; por isso a Maria, a quem não seria permitido chegar a ungir o corpo morto, apesar de muito o desejar, foi concedido o favor de prestar este obséquio enquanto Ele ainda vivia, o que não poderia fazer depois da morte, sendo prevenida pela rápida ressurreição.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12,1-11 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus in Ioannem
Ele falava da presença do seu corpo: pois segundo a sua majestade, segundo a sua providência, segundo a sua graça inefável e invisível, cumpre-se o que foi dito por ele: "eis que eu estou convosco até a consumação do século". Ou de outro modo: Na pessoa de Judas estão significados os maus na Igreja: pois se és bom, tens Cristo tanto no presente pela fé e pelo sacramento, e o terás sempre: porque quando daqui saíres, irás para aquele que disse ao ladrão: "hoje estarás comigo no Paraíso". Mas se te comportas mal, pareces ter Cristo no presente, porque és batizado com o Batismo de Cristo, aproximas-te do altar de Cristo; mas vivendo mal não o terás sempre. Ele não disse: tens, mas tereis, porque um mau significa o corpo dos maus. Segue-se "conheceu, portanto, uma grande multidão dos judeus que ele estava ali, e vieram, não por causa de Jesus somente, mas para verem a Lázaro, a quem ressuscitou dos mortos". A curiosidade os trouxe, não a caridade.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12,1-11 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus
O perfume com que Maria ungiu os pés de Jesus foi a justiça, e por isso tinha uma libra. Este perfume era de precioso nardo líquido; pistis, em grego, significa fé. Queres praticar a justiça? O justo vive da fé (Rm 1,17). Unge os pés de Jesus vivendo bem; segue seus passos; enxuga-os com teus cabelos. Se tens algo supérfluo, dá-o aos pobres e terás enxugado os pés do Senhor, porque os cabelos representam o supérfluo do corpo.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12,1-11 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Alcuíno de York — Alcuinus
E deve-se notar que, primeiro, ungira somente os pés, mas aqui ungiu os pés e a cabeça; ali se assinalam os rudimentos dos penitentes, aqui a justiça das almas perfeitas. Pela cabeça do Senhor expressa-se a sublimidade da divindade, pelos pés a humildade da encarnação; ou pela cabeça, o próprio Cristo, pelos pés os pobres, que são seus membros.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12,1-11 — Fonte
Jesus Carrega a Cruz
"E, carregando com a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, que em hebraico se diz Gólgota"
Jo 19,17
Exaltação da Cruz
"E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim"
Jo 12,32
A Madeira como Redenção da Maldição
"Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se ele próprio maldição por nós — pois está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro"
Gl 3,13
Significado Teológico

A tradição chama a Cruz de Lignum Vitae (madeira da vida), em contraste com a árvore do Éden que trouxe a morte. São Paulo vê nela a inversão da maldição: onde a madeira foi instrumento de ruína, torna-se agora veículo de redenção. A madeira da Cruz é o elemento material mais carregado de teologia sacramental de toda a Escritura — nela se consuma o sacrifício que todos os sacramentos comunicam.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Tratados sobre o Evangelho de João, CXVII
Carregou sobre seus ombros o madeiro do suplício, assim como o sacerdote carrega o instrumento do seu sacrifício. Abraão havia prefigurado isto quando Isaque carregou a lenha do holocausto sobre o monte. O que estava escondido na figura agora se manifesta na realidade: Cristo é ao mesmo tempo sacerdote e vítima, altar e oblação, e o madeiro da vergonha torna-se o trono da glória eterna.
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus in Ioannem
Mas como consideravam a cruz como profana e a evitavam, não suportando nem mesmo tocá-la, impõem a cruz a Jesus como a um condenado; por isso segue: e, carregando sua própria cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, que em hebraico se chama Gólgota, onde o crucificaram. Assim também se cumpriu em figura: Isaac, com efeito, carregou a lenha; mas naquele caso, o acontecimento procedeu até onde a boa vontade do pai determinou; agora, porém, obteve efeito nas coisas realizadas, pois era a verdade.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Theophylactus
Mas, de certo modo, assim como lá Isaac foi preservado e o carneiro sacrificado, também aqui a natureza divina permanece impassível; mas a humanidade, segundo a qual é chamado carneiro, como filho do carneiro errante Adão, aqui foi sacrificada. Mas como é que outro Evangelista diz que obrigaram Simão a carregar a cruz?
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus
E assim como os vencedores, também ele carregava nos ombros o símbolo da vitória. Alguns, porém, dizem que naquele lugar chamado Calvário, Adão morreu e foi sepultado; para que no local onde a morte reinou, ali também Jesus estabelecesse seu troféu.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus
No entanto, a própria cruz, se você observar, foi um tribunal de justiça: com o Juiz colocado no meio, um ladrão, que acreditou, foi libertado; o outro, que insultou, foi condenado: já significava o que Ele fará com os vivos e os mortos, colocando alguns à direita e outros à esquerda.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus
Mas, "se eu for", diz, "levantado da terra"; isto é, quando for levantado; pois não duvida que haveria de acontecer aquilo que veio cumprir: porque chamou à sua exaltação a paixão na cruz; razão pela qual o Evangelista acrescenta: "E isto dizia, significando de que morte havia de morrer".
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus
Mas qual é este juízo pelo qual o Diabo é lançado fora? Torná-lo-ei manifesto com um exemplo. Suponhamos que alguém persegue seus devedores, os golpeia e os lança na prisão; então, pela mesma insensatez, prende também alguém que nada lhe deve no mesmo cárcere: este sofrerá castigo também pelo que fez aos outros. Assim também aconteceu com Cristo: pelos males que o Diabo nos fez, pelos ultrajes que ousou contra Cristo, sofrerá vingança. E para que ninguém diga: como será lançado fora, se ele te vencerá? Acrescenta: "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todas as coisas a mim mesmo." Como pode ser vencido aquele que atrai a outros? Isto foi mais do que dizer: "ressuscitarei". Pois se tivesse dito isso, ainda não estaria claro que ele atrairia; mas ao dizer "atrairei", demonstra ambas as coisas.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 12 — Fonte
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia
Epifânio — Panário 42,12.3, Segunda refutação de Marcião
O santo apóstolo, revelando mais uma vez como a aparição na carne e a cruz cumpriram o plano para o rompimento da maldição, e como isso havia sido anteriormente escrito na lei e profetizado como algo que viria a acontecer e então se cumpriu no Salvador, demonstrou claramente que a lei não é estranha ao Salvador.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia
Crisóstomo — Homilia sobre Gálatas 3,13
As pessoas estavam sujeitas à pena por não terem cumprido toda a lei. Cristo satisfez uma maldição diferente: "Maldito todo aquele que é pendurado num madeiro" [Dt 21,23]. Tanto o que é pendurado quanto o que transgride a lei são malditos. Cristo, que ia levantar a maldição, não poderia propriamente ser responsabilizado por ela, visto que ainda não havia recebido maldição alguma. Recebeu a maldição não por ser obrigado a isso, e por meio dela levantou a maldição. Do mesmo modo, quando alguém é condenado à morte e uma pessoa inocente decide morrer por ele, liberta-o daquele castigo — e assim também fez Cristo. […] Assim como ao morrer arrancou da morte os que iam morrer, assim também ao sofrer a maldição os libertou da maldição.
Purificação do Templo
"Fazendo um açoite de cordas, expulsou todos do templo, com as ovelhas e os bois; derramou o dinheiro dos cambistas e virou-lhes as mesas"
Jo 2,15
Açoitamento na Paixão
"Então Pilatos tomou Jesus e mandou-o açoitar"
Jo 19,1
Significado Teológico

O açoite feito por Jesus revela sua autoridade messiânica sobre o culto divino — o Templo é casa de oração, não de mercado. O mesmo instrumento que Jesus maneja com autoridade no início de seu ministério volta contra ele na Paixão, onde seu corpo torna-se o verdadeiro Templo destruído e reedificado em três dias (Jo 2,19-21). Os açoites sofridos cumprem a profecia do Servo: "pelas suas chagas fomos sarados" (Is 53,5).

Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Theophylactus
E não somente expulsou os que vendiam e compravam, mas também as coisas que lhes pertenciam; donde segue: e também as ovelhas e os bois, e derramou o dinheiro dos cambistas, e derrubou as mesas, isto é, as mesas de câmbio, que eram como recipientes de dinheiro.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 2 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Orígenes de Alexandria — Origenes
Consideremos também, para que não pareça algo extraordinário, que o Filho de Deus, tendo apanhado cordas, preparou para si um açoite para expulsar do templo. Entretanto, resta-nos um refúgio para responder a isso: o divino poder de Jesus, para que, quando quisesse, pudesse sufocar a ira dos inimigos, por mais inumeráveis que fossem, e acalmar as turbulências das mentes; pois o Senhor dissipa os pensamentos das nações. A presente história não demonstra em nada um poder menor do que aqueles manifestados por Ele de forma mais milagrosa; pelo contrário, constata-se que esta demonstra um poder maior do que o milagre pelo qual a água foi convertida em vinho, porque lá a matéria inanimada permaneceu, mas aqui são domadas as vontades de tantos milhares de homens.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 2 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus de Cons. Evang.
É manifesto que isso não foi feito uma só vez, mas repetidas vezes pelo Senhor. Mas aquele primeiro evento é rememorado aqui por São João, o último pelos outros três.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 2 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Beda
Os discípulos, vendo nele este ferventíssimo zelo, recordaram-se de que foi por zelo pela casa do pai que o salvador expulsou os ímpios do templo.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 2 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus in Ioannem
Como os judeus clamaram que não queriam que Jesus lhes fosse libertado por Pilatos por causa da Páscoa, mas sim Barrabás, o ladrão, acrescenta-se: então Pilatos tomou Jesus e o açoitou. Deve-se crer que Pilatos não fez isso por outro motivo senão para que os judeus, saciados com as injúrias feitas a Ele, julgassem que isso lhes bastava e desistissem de enfurecer-se até à morte de Jesus. A isto se refere o fato de que o mesmo governador também permitiu que sua coorte fizesse o que segue; ou talvez até ordenou: pois disse o que depois os soldados fizeram, mas não disse que Pilatos o ordenou; segue-se, pois: e os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, a impuseram sobre a sua cabeça, e o vestiram com um manto de púrpura: e aproximavam-se dele, e diziam: Salve, rei dos judeus, e davam-lhe bofetadas.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
São João Crisóstomo — Chrysostomus
Não era uma ordem do governador que eles executavam, mas faziam isso para agradar aos judeus; porque nem no princípio foram ordenados por ele a ir durante a noite, mas faziam tudo isso para satisfazer os judeus por causa do dinheiro. E durante tantos e tais ultrajes, Ele permanecia em silêncio. Tu, porém, ao ouvir estas coisas, mantém continuamente em tua mente: contemplando o Rei de toda a terra e Senhor dos Anjos sofrendo ultrajes e suportando tudo em silêncio, imita-O.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 19 — Fonte
O Espírito como Vento — Diálogo com Nicodemos
3. Jesus replicou-lhe: "Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus". 4. Nicodemos perguntou-lhe: "Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?". 5. Respondeu Jesus: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. 6. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. 7. Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo. 8. O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito". 9. Replicou Nicodemos: "Como se pode fazer isso?". 10. Disse Jesus: "És doutor em Israel e ignoras estas coisas!... 11. Em verdade, em verdade te digo: dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis o nosso testemunho. 12. Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me credes, como crereis se vos falar das celestiais?"
Comparador de Versões Bíblicas — São João 3,3-12
O Sopro do Ressuscitado
19. Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: "A paz esteja convosco!". 20. Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. 21. Disse-lhes outra vez: "A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós". 22. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: "Recebei o Espírito Santo. 23. Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos".
Comparador de Versões Bíblicas — São João 20,19-23
Pentecostes — O Vento Impetuoso
1. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. 3. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. 5. Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. 6. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7. Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: "Não são, porventura, galileus todos estes que falam? 8. Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? 9. Partos, medos, elamitas; os que habitam a Mesopotâmia, a Judeia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, 10. a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene; peregrinos romanos,"
Comparador de Versões Bíblicas — Atos dos Apóstolos 2,1-10
Significado Teológico

O vento e o sopro são os sinais materiais mais imediatos do Espírito Santo nas Escrituras. Em Jo 3,8 Jesus usa a invisibilidade do vento para revelar a transcendência do nascimento espiritual. Em Jo 20,22, o sopro de Cristo ressuscitado sobre os apóstolos ecoa o sopro criador de Deus sobre Adão (Gn 2,7), instaurando a nova criação e conferindo o poder de perdoar pecados — fundamento sacramental da Penitência e da Ordem Sagrada.

Catena Aurea — Padres da Igreja
Beda, o Venerável — Beda
É, portanto, o Espírito Santo que sopra onde quer, porque Ele mesmo tem o poder de iluminar com a graça de Sua visita o coração de quem Ele quiser. E ouves a sua voz, quando, em tua presença, fala aquele que está repleto do Espírito Santo.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 3 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Santo Agostinho — Augustinus
Ressoa o Salmo, ressoa o Evangelho, ressoa a Palavra divina, é a voz do Espírito. E diz isto porque o Espírito Santo está presente, ainda que de modo invisível, na palavra e no sacramento, para que nasçamos.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 3 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Haímo de Auxerre — Haymo
Ou não sabes de onde vem, porque ignoras como conduz os que creem à fé; ou para onde vai, porque não sabes como leva os fiéis à esperança; e assim é todo aquele que nasceu do espírito; como se dissesse: o Espírito Santo é um espírito invisível; assim também, todo aquele que nasce do espírito, nasce invisivelmente.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 3 — Fonte
Catena Aurea — Padres da Igreja
Teofilacto de Bulgária — Theophylactus
Confunda-se, portanto, Macedônio, impugnador do Espírito, que afirmou ser o Espírito Santo um servo; pois o Espírito Santo, por seu próprio poder, opera onde quer e como quer.
Catena Aurea do Evangelho de São João — Jo 3 — Fonte
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Leão Magno — Sermão 75
Para o povo hebreu, recém-libertado do Egito, a lei foi dada no Monte Sinai, cinquenta dias após a imolação do cordeiro pascal. Do mesmo modo, após a paixão de Cristo — no qual o verdadeiro Cordeiro de Deus morreu —, somente cinquenta dias depois de sua ressurreição o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e todo o grupo de crentes. Assim, o cristão fervoroso pode facilmente perceber que os primórdios da Antiga Aliança serviam aos fundamentos do Evangelho e que o mesmo Espírito que instituiu a primeira estabeleceu a segunda aliança.
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Crisóstomo — Homilias sobre os Atos dos Apóstolos 4
Assim Moisés era o maior dos profetas, contudo, quando os demais iam receber o Espírito, sofreu uma diminuição de si mesmo. Mas aqui não é assim. Pois assim como se acende o fogo em quantas lâmpadas se quiser, aqui também se manifesta a abundância do Espírito. Cada um deles recebeu uma fonte do Espírito, como ele mesmo disse, que os que creem nele terão "uma fonte de água que brota para a vida eterna." E assim foi. Pois não iam enfrentar o Faraó, mas lutar contra o diabo. O admirável é isto: não fizeram objeção alguma quando foram enviados; não disseram que eram "fracos de voz e de língua pesada." Moisés os ensinara melhor. Não disseram que eram jovens demais. Jeremias os tornara sábios. E, no entanto, ouviram coisas terríveis, muito piores do que as de outrora, mas não tiveram medo de resistir. Porque eram anjos de luz e ministros das coisas do alto. Ninguém do céu aparecia às pessoas de outros tempos, pois estavam em busca do que era terreno. Mas quando o homem subiu ao alto, o Espírito desceu do alto "como o sopro de um vento impetuoso." Por isso fica claro que nada poderá resistir a eles e que varrerão todos os adversários como um montão de poeira.
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Crisóstomo — Homilias sobre o Evangelho de Mateus 12.3
Pois também no caso dos apóstolos houve "o estrondo de um vento forte" e visões de línguas de fogo apareceram — mas não por causa dos apóstolos, e sim por causa dos judeus que ali estavam presentes. Todavia, ainda que hoje não ocorram sinais sensíveis, recebemos as coisas que um dia foram manifestadas por eles. Assim, a própria pomba apareceu naquele momento como que para, a modo de dedo, apontar aos presentes e a João o Filho de Deus. Não somente por isso, porém, mas também para ensinar que, no batismo, o Espírito igualmente vem sobre ele. Mas desde então não temos necessidade da visão sensível, bastando a fé em lugar de tudo. A busca por sinais é "não para os que creem, mas para os que não creem."
Jesus Impõe as Mãos sobre os Enfermos — São Lucas 4,35-44
35. Jesus o repreendeu, dizendo: "Cala-te, e sai desse homem." E o demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele, sem lhe fazer nenhum mal. 36. Todos se atemorizaram, e falavam uns com os outros, dizendo: "Que é isto, ele manda com autoridade e poder aos espíritos imundos, e estes saem?" 37. E a sua fama ia-se espalhando por todos os lugares da região. 38. Saindo Jesus da sinagoga, entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão estava com febre muito alta. Pediram-lhe por ela. 39. Ele, inclinando-se para ela, ordenou à febre, e a febre deixou-a. Ela, levantando-se logo, servia-os. 40. Quando foi sol-posto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias, traziam-lhos. E ele, impondo as mãos sobre cada um, sarava-os. 41. De muitos saíam os demônios, gritando: "Tu és o Filho de Deus." Mas ele repreendia-os severamente e impunha-lhes silêncio, porque sabiam que ele era o Cristo. 42. Quando se fez dia, tendo saído, foi para um lugar deserto. As multidões puseram-se a procurá-lo, e, tendo-o encontrado, detinham-no, para que se não afastasse deles. 43. Mas ele disse-lhes: "É necessário que eu anuncie também às outras cidades a boa nova do reino de Deus, pois para isso é que fui enviado." 44. E andava pregando nas sinagogas da Judeia.
Comparador de Versões Bíblicas — São Lucas 4,35-44
Ordenação dos Diáconos
"Apresentaram-nos aos apóstolos, e estes, depois de orar, lhes impuseram as mãos"
At 6,6
Imposição sobre Paulo e Barnabé
"Então, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os despediram"
At 13,3
O Dom de Timóteo — Imposição do Presbitério
"Não negligencies o dom que há em ti, que te foi dado por profecia com a imposição das mãos do presbitério"
1Tm 4,14
Reacende o Dom Recebido
"Por isso te lembro que reacendas o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos"
2Tm 1,6
Significado Teológico

A imposição das mãos é o elemento material central de dois sacramentos: a Ordem Sagrada e a Confirmação. No Antigo Testamento já sinalizava transmissão de autoridade e bênção (Nm 27,18-23; Dt 34,9). No Novo Testamento, Cristo cura pela imposição das mãos e os apóstolos a usam para conferir o Espírito Santo e constituir ministros. A Igreja define que a matéria essencial da Ordem é precisamente esse contato físico das mãos do bispo sobre o ordinando — gesto que não pode ser substituído por qualquer outra fórmula ou rito. São Paulo adverte Timóteo a não impor as mãos levianamente (1Tm 5,22), reconhecendo o peso do ato como transmissão de poder sacerdotal real.

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Crisóstomo — Homilias sobre os Atos dos Apóstolos 14
Pois de fato é necessária uma grande sabedoria nesses ministérios. Não pense que, pelo simples fato de não lhe ter sido confiada a pregação da palavra, tal pessoa não precisa de sabedoria; ao contrário, tem grande necessidade dela.
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Crisóstomo — Homilias sobre os Atos dos Apóstolos 14
Eles são distinguidos da multidão. É o próprio povo que os apresenta para a ordenação, e não os apóstolos que os conduzem. Observa como ele não faz nada em excesso. Não diz como foi feito, mas apenas que foram ordenados por meio da oração. Pois este é o significado de "ordenação" — em grego, "estender a mão": a mão que é posta sobre a cabeça pertence a uma pessoa, mas todos os efeitos são de Deus; e é a mão que toca a cabeça do ordenando, se ele é devidamente ordenado.
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Amônio — Catena sobre os Atos dos Apóstolos 6,6
É digno de nota que a ordenação se dá pela palavra dos líderes por meio da oração e da imposição de suas mãos, e que o grau de diácono foi conferido aos diáconos desde o princípio, e que esse costume tem sido observado até hoje.
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Crisóstomo — Homilias sobre os Atos dos Apóstolos 27
O que significa "separados para mim"? Significa para a obra, para o apostolado. Lembra quem os ordenou? Lúcio de Cirene, Manaém — ou melhor, dever-se-ia dizer: o Espírito. Pois quanto mais humildes são as personagens envolvidas, mais palpável é a graça de Deus. Paulo é ordenado para o apostolado, para pregar com autoridade. Como é então que ele mesmo diz: "não da parte dos homens nem por meio de homem"? Porque não foi a humanidade que o chamou ou o trouxe. É isso o que "nem por meio de homem" significa. Por essa razão, diz que não foi enviado por este ou aquele homem, mas pelo Espírito.
La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia
Crisóstomo — Homilias sobre os Atos dos Apóstolos 28
Logo que foram ordenados, partiram e se apressaram para Chipre, vendo que ali nenhuma trama estava sendo tramada contra eles e que a palavra já havia sido semeada. Em Antioquia havia mestres suficientes. Quanto à Fenícia, estava próxima da Palestina — mas não assim Chipre. Não perguntes, porém, o porquê, quando é o Espírito quem dirige seus movimentos. Pois não apenas foram ordenados pelo Espírito, mas também enviados por ele.
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Crisóstomo — Homilias sobre 1 Timóteo 13 (sobre 1Tm 4,14)
Fala-se aqui não de presbíteros, mas de bispos. Pois não se pode supor que presbíteros tenham ordenado um bispo.
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São Jerônimo — Cartas 146,1
O apóstolo ensina claramente que os presbíteros são os mesmos que os bispos... Ao escrever a Tito, o apóstolo diz: "Por esta razão te deixei em Creta, para que pusesses em ordem o que falta e constituísses presbíteros em cada cidade... Pois é necessário que o bispo seja irrepreensível, como administrador de Deus." E a Timóteo diz: "Não negligencies o dom da profecia que está em ti, o qual te foi concedido mediante a imposição das mãos do presbitério."
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Teodoro de Mopsuéstia — Comentário sobre 1 Timóteo
Aqueles a quem chama de presbíteros nesta passagem não são aqueles a quem hoje damos esse nome — Paulo não costuma atribuir aos presbíteros como tais o poder de ordenação pela imposição das mãos. Ao contrário, diz que a assembleia dos apóstolos estava presente com ele quando lhe impuseram as mãos na ordenação. Chama isso de "conselho de presbíteros" como denominação honorífica. Está de acordo com esse costume que, na ordenação de um bispo, não apenas um, mas uma multiplicidade de bispos presentes realize a ordenação.

Conexão com os Sete Sacramentos

Batismo

A água santificada por Jesus prefigura as águas batismais que regeneram e incorporam o cristão ao Corpo de Cristo.

Eucaristia

O pão e o vinho transformados por Jesus antecipam a transubstanciação eucarística celebrada em cada Missa.

Confirmação

O óleo da unção prefigura o santo crisma com o qual o confirmando recebe a plenitude do Espírito Santo.

Unção dos Enfermos

As curas realizadas com óleo pelos Apóstolos antecipam este sacramento de cura, fortalecimento e consolo.

Penitência

O sopro de Jesus sobre os apóstolos — "Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados" (Jo 20,22-23) — institui o sacramento da Confissão.

Ordem Sagrada

A imposição das mãos de Jesus sobre os discípulos prefigura o gesto sacramental da ordenação episcopal, presbiteral e diaconal.

Matrimônio

Ao realizar seu primeiro milagre nas Bodas de Caná, Jesus consagra o matrimônio como sinal do amor de Deus pela humanidade.